Não terei como ir amanhã à câmara.
Estou enviando ao setor meu texto como aquilo que simboliza a minha presença.

Não sou tão sectário assim (como já me expus em outro momento) acerca da polêmica lei que foi desenterrada em 2013, proposta em 1997 (há mais de 15 anos), portanto merece da comunidade essa reflexão. E mesmo um amadurecimento de nossa mobilização, enquanto segmento.

Está em jogo, em nossas discussões, duas variantes bem próximas: a valoração e a valorização do nosso trabalho dentro da música. Ambas são hoje essenciais ao exercício profissional. Do músico. A cada um de nós cabe, à medida de sua dedicação ao trabalho, definir a cobrança de um valor por este. À medida de sua compreensão, também, de uma realidade que o cerca e o afeta, inclusive financeiramente. No fim, cada qual é que sabe e se ‘competencia’ a cobrar quanto. Nisso, uma lei não mexe, pois já rege-a o ditoso mercado inviolável. Mas, o mercado… Bem, vocês sabem, os mercados são de muitos tipos: o mais conhecido e utilizado aqui é o negro; o mais violento. Vultosas quantias circulam entre os empresários e os gabinetes, e o que é certo é que para o músico, sobra merreca. As exceções são muito raras. Tem grana para locar o local, o som, a luz, a equipe de segurança, a empresa dos banheiros químicos, a contratação dos geradores, assistente, produtor… E, para o músico: (?). Quanto? Tudo bem?

Mercado não valoriza artista, nem nada. Mercado valora as coisas, os produtos, os serviços, as barganhas. Mercado é isso. O mercado quer saber por quanto eu me vendo. Ao mercado não se atribui o dever de valorizar a arte, apenas dizer por quanto ela pode ser comprada. Agora, o estado, em suas prerrogativas, possui a obrigação de valorizar a arte, pois é um valor importante à manutenção de uma sociedade sã e em condições de vivenciar o ludismo sem paranoia e flagelação. Portanto, ao estado a lei (esta, aquela ou outra) pode ser aplicada. A lei poderia até ser desnecessária se houvesse em curso uma política pública para o setor, mas infelizmente não é o caso. A lei é um pontapé para dar um passo na criação de uma política para o segmento. E política cultural se faz com leis.

Por isso, não sou tão intolerante, como tantos.
Vi em muitas manifestações arrogância e preconceito, e pessoalmente considerei o jornal Tribuna do Norte tendencioso, quando me citou em sua reportagem grafando a palavra profissionalização aspeada, abrindo com sua sutileza semântica mil portas para interpretações dúbias e com conotações diferentes do significado da palavra em sua acepção nata, (que todos sabem qual é, quando sem aspas). Além do mais, é bom que tenhamos a sagacidade de ler nas entrelinhas. Vejam, por exemplo, como se comportou a câmara na reunião passada, que chegou ao disparate de colocar uma lei em votação em regime de urgência, exatamente quando a sociedade civil demonstrava o interesse em aprofunda-la, e ao seu sentido. Qual a urgência que há em relação a este pleito? Qual o problema de adiar uma votação por mais alguns dias, para lhe permitir os ajustes e o seu bom emprego? Do que adiantará ter uma lei (mais uma) que não seja cumprida? Na minha opinião, esta lei não deveria ter o nome do seu proponente. É o que acho. Quero opinar. Não estou de acordo e devo ter garantido o direito de que minha proposição seja analisada e avaliada. É possível? Por que não?

No mais, a tal lei trouxe à tona muitos questionamentos, alguns éticos e morais, (alguns imorais), mas o que não podemos deixar de reconhecer é a nossa desarticulação, teimosa, insistente, desnecessária e inútil. Por isso, como presidente de uma cooperativa que hoje possuímos, e que por si só é uma resposta ao perfil isolacionista com que temos nos caracterizado, apelo a todos os ‘operários’ da música para que reflitam sobre esses acontecimentos. Também aproveito para convida-los ao associativismo, seja via cooperativa, seja alimentando a Rede Potiguar de Música (RPM), fortalecendo sua cadeia e participando de modo mais atuante do que acontece no seu meio. A RPM hoje é integrada pela cooperativa, pelo fórum, e pelo sindicato, mas outras entidades com históricos pertinentes trariam muito mais força e representatividade para a música no estado.

Por fim, explicito o meu apoio à emenda que está sendo encaminhada, da qual a Compor é signatária, e reforço o vínculo que podemos mais e mais vezes fazer crescer entre os que escolheram a música para tocar a vida.

E fiquem espertos: não vão ficar tocando profissionalmente por qualquer coxinha.

leia a coluna a/cEsso

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