FIC 2013

12 dezembro, 2013

Saiu o resultado do FIC 2013.
Conheço vários dos agraciados e parabenizo a todos.
Fui proponente do projeto para concluir e publicar um livro sobre a cena roqueira da cidade. Há anos venho trabalhando para viabilizar essa empreitada, mas ainda não chegou o momento. Só terei como parir o livro com apoio financeiro, pois apenas a impressão vai perto dos 15 mil reais.

No entanto, entre os relacionados, alguns ligados à música, me chamou a atenção especialmente este: O Samba da Minha Terra – Centenário de Dorival Caymmi. Ora, se temos um fundo criado com a finalidade de incentivar a nossa produção, que diabos estará a fazer entre os escolhidos um que tem como fim celebrar a obra do baiano? Não estou pondo em xeque, obviamente, a importância do compositor da Suíte dos Pescadores, não precisaria nem dizer isso. Muito menos questiono quem apresenta uma proposta, seja ela qual for. Mas não me contenho em perguntar àqueles que assumiram a responsabilidade pela seleção, em qual critério está amparada tal escolha?

Como um concurso público – que é no fim das contas o que um edital público é – que tem em seu objetivo “o fomento da produção cultural natalense em suas diversas manifestações, priorizando a criação, produção, circulação e fruição de bens e serviços culturais” resolve escolher entre os classificados um projeto que irá em torno do samba festejar o centenário do já imensamente célebre Dorival Caymmi? Pôxa! Não está havendo um equívoco aí? E será só isso? Apenas um equívoco? Já não chega a ser uma distorção daquilo a que se destina o fundo e o recurso?

Vejamos. O samba, seus artistas e seus empreendedores, do Luizinho Nobre aos luizinhos pobres, atravessam em Natal um momento razoável, dos buracos chiques às praças cheias, com o povo todo cantando e dançando os refrões de seus ídolos, fazendo girar em torno dos grupos e dos artistas, casas noturnas e prestadores de serviço, vendedores de cerva e locadores de som e luz, uma movimentação que a própria quantidade de pessoas e eventos por si só já atesta. Os músicos, como sempre, são os que menos se dão bem, mas aí já é outra história.

Me interessa agora refletir sobre esta situação específica do Fundo, sua importância, foco e contradições. Mesmo sendo ainda um valor bastante baixo para o nível da necessidade local, que devemos lutar para aumentar, é de toda maneira o que temos, por ora. Também tendo sido caloteado pela desastrosa administração que passou, incorrendo em erros grosseiros e irresponsáveis por parte dos gestores culturais, espera-se agora que seja retomado um trabalho que chegue de fato a surtir seus efeitos, estimulando o campo artístico a apresentar propostas que não encontram eco dentro dos esquemas comerciais. Este é, no meu entender, a função e a natureza de um fundo de incentivo cultural.

Além da clareza de suas intenções, também creio ser prudente a transparência de seus processos. Na publicação de sua seleção esperava que fosse não só exposta a relação dos ganhadores, mas a pontuação alcançada pelos projetos, mostrando a relevância que cada proposta recebeu dos conselheiros, além da lista de suplentes aptos a substituírem aqueles que porventura sejam inabilitados a cumprir as etapas subsequentes até a assinatura do contrato.

E que nas próximas edições seja aditada uma cláusula ao edital que possibilite um prazo que dê condições de impetrar recursos, o que eu teria certamente feito dessa vez.

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Versátil

2 dezembro, 2013

Toínho Silveira, o versátil

Toínho Silveira, o versátil

Quer ter um petisco do que seja a chamada socialáite norterriograndense?
Sintoniza o canal da TV Ponta Negra, após a sua primeira edição do Jornal do Dia, mais ou menos após a hora do almoço. Você vai ver … Vai estar lá, entrando no ar o pitoresco Toínho Silveira, celebrado colunista social dessa taba natal, que vai com certeza lhe dar um gostinho de qual seja o nível de nossas elites, eleitas ou não.

O apresentador é, por assim dizer, um fiel representante da mais alta roda de nossa sociedade, e traduz aquilo que nela lhe é característica: uma elegância inegável, um toque de classe que transforma tudo que diz ou faz em uma sentença de nobreza, uma espontaneidade tão graaande que fica até difícil não perceber, … Enfim, tudo ali é de uma finesse que logo mostra o porte de uma ala econômica que não tá pra brincadeira meesmô. Como é na tevê, aproveita-se o programa para estampar o bom gosto do mestre de cerimônias, e por extensão, também de seus acólitos admiradores, apoiadores e patrocinadores, uma meca de senhores e senhoras dos mais finos padrões, donos de empresas, mercadores, estilistas, cantores, djs, fazendeiros e pleiboes, o escambau. Só gente arretada.

A gala é a cláusula inviolável dessa fatia distinta de nosso estrato mais rico, exibindo seus trejeitos clássicos sob seus trajes adquiridos em galerias caras e famosas do mundo, (paulistano). Assim, com essa estética de luxo forrando os salões, sempre após um aforismo inicial cheio de sabedoria e dito sob o pano de fundo de um solo musical inspirado, dá-se início a este momento singular e imperdível da televisão potiguar.

Não perca.
Você vai desmanchar na hora essa ideia ridícula de que temos uma síndrome de provincianismo incurável, como dizem por aí. Essa nossa Hebe, esbanjando atitude e domínio de nossa cultura diariamente, lhe dará provas de que o jetset dessa cidade encantadora está à altura dos mais badalados, sem nada a dever ao colunismo social de qualquer quadrante do país. E quem sabe você acabe por ganhar um convite vip para estar presente na próxima feijoada da Liége Barbalho ou seja surpreendido com a oportunidade de passar de ano no camarote do Paulo Macedo, entre drinques e coquetéis e pessoas glamurosas.

Feliz Natal!!

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Perdas Doídas

1 dezembro, 2013

Luciano (esq) e Raufy (dir), amigos músicos.

Luciano (esq) e Raufy (dir), amigos, músicos.

Passando, a semana que acabou ontem deixou a música de Natal com duas perdas, para mim igualmente lamentáveis. Na segunda, Manoca Barreto, professor da Escola de Música da UFRN, 49 anos, uma carreira consolidada e reconhecida, 2 discos (mais?), egresso dos primeiros passos do cenário roqueiro da cidade, primórdios dos anos 80, tirou a própria vida e entristeceu a cidade com a notícia de sua decisão fatal.

Na quinta à noite, ao sair para passear com o seu cão, na Cidade da Esperança, o guitarrista Raufy Cavalcante foi surpreendido por três atiradores que se encontravam em um carro e levou 18 balaços, morrendo instantaneamente, sem nenhuma chance de se defender de uma violência desenfreada que grassa pesarosa sob a luminosidade da cidade do sol.

Ambas as mortes foram violentas e abalaram-nos, a todos que trabalhamos com música por aqui e que temos afeto pelos companheiros. Conheci os dois e sei que eram pessoas magníficas e de almas limpas e corações lindos. Senti intensamente a partida precoce desses irmãos de sons, e desejo que suas famílias e seus entes mais próximos possam encontrar conforto para seguirem o cortejo da vida presente, sempre mais difícil após ocorrências tão funestas.

Raufy tinha apenas 33 anos e era um garoto, cheio de uma alegria contagiante, pois simples e espontânea, viva, vibrante e honesta. Residente no bairro onde foi assassinado, colaborou com diversos projetos musicais, autorais ou não, dando com sua guitarra uma imprescindível contribuição ao trabalho de Donizete Lima, também integrante do núcleo musical que sempre caracterizou o local.

Sua partida inesperada me fez lembrar de imediato o Luciano Eduardo (‘basqueteira’), com quem Ralfy vinha tocando nas noitadas de Natal, integrantes da banda Rota 101. Luciano integrou o primeiro grupo a que me filiei aqui, no início dos anos 90, e abrimos uma amizade que já percorreu mais de 20 anos e que foi retomada recentemente com nosso reencontro há pouco tempo.

Estou falando de pessoas que escolheram o horizonte da música para atuar, que criam suas famílias e garantem seu sustento com força, garra e brio, harmonizando as vidas suas e de outros com canções e emoções, embalando alegremente os momentos humanos.

Manoca hoje viu reunido no palco do Parque das Dunas um incontável número de admiradores, profissionais como ele ou simples fãs, que desamparados com sua retirada fortuita celebraram comovidos o seu fim em um show tributado a si.

E quanto a Raufy, vítima de um assassinato terrível, cruel, insidioso, até aqui sem nenhum esclarecimento, recebeu de seus amigos uma homenagem ainda no final de semana, pois o grupo não pôde parar de trabalhar, nem a música, nem o show pode calar.

Que a cada qual, em sua dimensão, seja permitido o sossego e uma extensão feliz de suas passagens terrenas em ares mais amenos e menos difíceis de respirar.

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