POR QUE CANTEI LENO

23 junho, 2014

Em fevereiro de 2009 me apresentei no Poticanto, projeto idealizado e executado por Nélson Rebouças onde um artista potiguar interpretava outro; e escolhi Leno, que havia há pouco retornado ao seu local de origem, sua terra Natal, após décadas de fixação entre Rio e Sampa como um dos grandes nomes da Jovem Guarda, e o único potiguar dentro do movimento.

Pouco mais de duas semanas – aproveitando os primeiros embalos para dar forma a um projeto com o qual viria a lidar até aqui, a Raul Seixas Banda Clube – e eu e Samir e Gabiru e Jacson Silva nos preparamos para fazer essa única apresentação da obra de um conterrâneo ilustre, embora pouco referenciado por nós.

Leno veio a ficar nacionalmente conhecido como integrante da famosa dupla com Lílian, mas após esta etapa sua carreira continuou se voltando para os sons que deram sua primeira formação musical, ainda em Natal, no final da primeira metade da década de 1960, quando montou com amigos a banda The Shouters.

Sem dúvida também colaborou fortemente pra esse show no Poticanto o fato de Leno e Raul Seixas terem tido uma convivência muito grande, desde o primeiro momento da chegada do baiano às terras cariocas, encontro que renderia uma farta convivência entre os dois artistas, tendo resultado entre outras maravilhas, no cultuado disco Vida e Obra de Johnny McCartney, censurado pela metade quando gravado, e só trazido à tona por um selo dos EUA mais de duas décadas depois. À época trabalhando para montar o show ‘Tolo de Ouro’ com os meus parceiros, decidimos tirar uns 15 dias para preparar e mostrar ao público, que lotou o Teatro de Cultura Popular, uma dúzia de canções deste mestre.

Leno é um compositor com muito material conhecido, mas preferimos dar lugar a um repertório que se estendesse sobre sua carreira solo, e tocamos entre estas músicas a emblemática Flores Mortas, de temática (pre)ecológica, criada ainda quando poucos davam atenção a estas questões que mundialmente fariam muito sentido tempos depois, sendo hoje cada vez mais atuais.

Através deste contato, quando nos conhecemos pessoalmente, em cima do palco, foi possível contar com a sua participação em uma das músicas do meu segundo disco de estúdio, Alma de Poeta, na bela Nenhuma Exata Resposta, parceria minha com Chico César, que Leno abrilhantou com vocais concebidos e colocados bem à sua maneira na canção.

O registro se deve a uma providencial câmera que meu irmão Lulinha deixou parada lá em algum lugar, o que possibilitou que hoje tenhamos esse documento. Lula, aliás, participou tocando acordeom em Ciências e Religiões, outra belíssima canção de Leno a que foi dada um tratamento personalizado e emocionantemente intimista.

 

leia a coluna a/cEsso

Me visite no Sítio!

Anúncios