A Ótica da Ética

17 março, 2016

Venho acompanhando a situação há algum tempo, observando mais de perto o cenário desde as jornadas de junho de 2013, e com mais intensidade nesses últimos lances. A patetice histórica da política partidária brasileira ganhou capítulos cada vez mais emocionantes, tendo chegado ao seu auge nessa noite obscura de ontem, 17 de março.

Anteontem, essa trama ganhou contornos inacreditáveis, com a divulgação de audios envolvendo a presidência da república, dando a partida a uma animosidade mais expressiva da população, que já vinha previsivelmente se esfregando desde a prisão coercitiva do ex-presidente. O ato, como se sabe, soou indecoroso, abortou a condução do investigado para Curitiba e repercutiu frontalmente a onipotência do judiciário perante a figura do velho operário, chamando a atenção do país para o tratamento diferenciado que foi dispensado ao peão petista.

A mim, importa sumariamente que sejam dadas garantias constitucionais que permita o aprofundamento das investigações contra a corrupção, inclusive as que estão em curso aqui no RN, que envolve de senador da república até os fanstaminhas da Assembleia Legislativa, passando pela procuradora-geral da casa e seu filho, os desvios nos contratos dos grupos musicais pelas prefeituras municipais, os crimes insolúveis ou sequer investigados da periferia, enfim, tudo. E todos. Mas o que vimos assistindo desde muito tempo antes desse, há aproximadamente cinco séculos, tem sido o olhar severo de uma justiça que não é isenta nem imparcial, que favorece os mais ricos e desce com força sua chibata sob o lombo dos pretos (ainda), pobres e desvalidos sociais. Juízes deslumbrados e partidarizados satirizam em suas sentenças as distinções dos seus cargos, dando carteiradas na nossa cara, todos os dias.

A grande mídia, vexatória, aponta sua força para a deflagração de um embate com viés notadamente tendencioso, onde suprime o justo jornalismo por uma pequena pauta de favores aos seus patrões, inviabilizando uma cobertura equilibrada dos fatos, tão essencial para o momento de tensão. A pólvora está para acender. Vamos ao que interessa: a tevê obtusa quer nos jogar dentro de uma guerra, que já começou, aliás. E nas mídias sociais ela já é bastante virulenta. Sem dar-se forma ainda explicitamente, de maneira velada nós já estamos em confronto, em bate-papo constrangentes com amizades queridas, em beligerâncias fotuitas, em ativismos virtuais que vão escorrer para o asfalto das ruas daqui a pouco, nos empurrando para um enfrentamento fratricida. Chega a ser acintoso (mais uma vez) saber que nos protestos marcados para hoje em São Paulo, a avenida paulista já está acampada há mais de 30 horas pelos integrantes do grupo que já a usou para se manifestar no dia 13, justamente em frente ao prédio simbólico da federação dos industriais, com mesas bem servidas cobertas com lençóis de linho branco, onde se refestelam aqueles que pedem a saída da presidente do poder. Desde ontem, já uma série de agressões bizarras foram perpretadas por estes grupos, e suas aparições nos vídeos que não param de postar na internete nos mostra o perfil de um público transtornado, fascistoide, caracterizado por uma alta agressividade a quem não segue seus ritos.

Não parece muito embaraçoso para a elite branca do país ir para as ruas vestindo justo a camisa da seleção brasileira, que como todos sabem, é dirigida por uma tropa de corruptos, tendo sido o seu honorável chefão até há pouco, o Sr. Marin, preso fora das nossas fronteiras como integrante de uma quadrilha internacional que desmoralizou a instituição do futebol e os seus cartolas, acarretando a seus patrocinadores um questionável debate sobre o apoio a um setor tão viciado em negócios podres. Não parece nada embaraçoso, à parte da sociedade brasileira, que hoje tenha sido dada a largada a um processo político de cassação do mandato presidencial eleito democraticamente, justamente por um fascínora, corrupto e corruptor de marca maior.

Não pensava assistir a tudo isso assim, quase de uma hora para outra, com esses desdobramentos tão incendiários, a levar o Brasil novamente para outro recuo ao fosso da ignorância. Quero uma nação mais justa, menos segregadora, mais confiável, mais sadia, mais plena, e sobretudo, mais livre. Por isso, após essa reflexão vigilante, tomei a decisão de ir à rua hoje, para defender essa democracia que, se não atende minha utopia, ao menos alimenta o meu desejo de que um dia, ainda um dia, possamos alcançar um estatuto mais justo de povo, sem distinção entre quem simplesmente toma uma cachaça e quem quer é cheirar o seu pozinho em paz.

Para bom entendedor, meia tonelada basta.

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