Festa em Cordes

19 agosto, 2017

la talv

Parte da minha vinda à França estava programada para uma visita a Daniel Loddo, em Cordes sur Ciel. Trata-se de uma cidadezinha construída na idade média, na região occitan, no sul do país, da qual Toulouse é o centro mais importante.

Daniel Loddo ao lado de Céline Ricard, sua companheira inseparável, participam juntos numa das faixas do meu disco que está pra sair no fim do ano. Juntos, eles conduzem uma associação chamada La Talvera, que mantém um grupo do mesmo nome, todos voltados para a preservação da cultura típica de sua região.

Cordes tem pouco mais de mil habitantes residentes, mas nessa época de veraneio na Europa é bastante visitada. Anualmente a associação realiza em agosto uma festa aqui, com o fim de celebrar seus costumes e tradições, sempre trazendo artistas convidados. Dessa vez foram os catalães do El Pont d’Arcalis, que logo cedo começaram a subir e descer as ruas íngremes de Cordes empunhando seus instrumentos para chamar todos a participarem da extensa programação que se desenrolou até o início da madrugada, concluída com um belo baile que reuniu músicas e danças da Catalunha e da Occitania.

Por causa do evento pude travar contato com outros músicos e associados membros do La Talvera que não tinha tido ainda a oportunidade de conhecer em Natal em 2014, quando a COMPOR recebeu alguns integrantes da associação para dar início a uma aproximação de nossas culturas respectivas. Há evidentes traços e/ou vestígios da presença de elementos musicais e até instrumentos (como o pífano, por ex) que perpassam nossa cultura comum. Também travei contato com o francês mais brasileiro com que cruzei na viagem, que foi o Fanck Rivet, atualmente residente na região de Bordeaux, mas com um currículo de passagens longas pelo Brasil e colaborações diversas com músicos brasileiros.

frankie

com Franck Rivet

Ainda nesse final de semana, antes de retornar a Paris, irei acompanhar Daniel e Celine, além de Fabrice Rougier e Aelis Loddo, a mais um compromisso artístico deles nessa temporada. Nesse período, quando o sol é mais presente por aqui, a agenda de festas populares, geralmente ao ar livre, é mais intensa.

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p ñ diz q ñ fal golpe

 

Em outubro passado, junto a Samir Almeida e Júlio Lima, apresentei em Natal o show ‘Pra não Dizer que não Falei do Golpe’. Foi uma iniciativa para demarcar uma posição política e cidadã, e nada teve a ver com qualquer narrativa partidária, inclusive fiz questão que não houvesse qualquer apoio de entidades e precisei recorrer apenas ao auxílio de pessoas físicas para que fosse possível cobrir custos com o local, na Ribeira.

Inicialmente o show-ato (como eu me referi a ele) iria contar com um número mais expressivo de participações, como a de Carol Benigno, Yrahn Barreto e Carlos Zens, mas as dificuldades na confluência das agendas não permitiu. Enfim, … superados todas os trâmites iniciais e tendo finalmente encontrado um lugar que dispusesse das características necessárias ao que pretendíamos mostrar, ele aconteceu para uma plateia pequena, embora significativa.

A princípio, minha ideia era que fizéssemos a apresentação numa escola, preferencialmente em seu auditório, devido também a critérios técnicos, como o tamanho e potência do equipamento a ser usado. Mas não rolou. As tentativas foram inúmeras, mas as ameaças de represálias aos diretores ou professores por parte de projetos como o ‘escola sem partido’ intimidou a todos. Também não queria tocar num bar, pois o formato era mais para um ambiente que não envolvesse a atmosfera sempre tumultuada e barulhenta de um boteco.

Para o repertório, que continha várias de nossas canções, incluímos umas 3 ou 4 de outros autores brasileiros, tendo começado com a belíssima e forte parceria de João Bosco e Aldir Blanc, interpretada em sua versão mais intensa por Elis: a canção ‘O Cavaleiro e os Moinhos’.

O fato é que mesmo com tudo que foi preciso driblar, o showato aconteceu. Claro que o nosso desejo era conclamar todos aqueles que se diziam insatisfeitos com a atual conjuntura para se fazerem presentes, mostrando à sociedade o descontentamento com os rumos que estavam sendo seguidos pela política brasileira, a usurpação do poder por uma quadrilha de corruptos que tinham como sua maior meta barrar investigações que expusessem seus modos nefastos de administrar os bens do povo brasileiro.

É óbvio que não conseguimos nenhuma notinha em qualquer veículo de comunicação de massa, e investimos toda a nossa divulgação em redes sociais eletrônicas, como vimos fazendo muito ultimamente. Mas o que nos surpreendeu, ao menos até certo ponto, foi o pequeno comparecimento do público, nos mostrando que já àquela época reinava uma apatia bem grande em relação a qualquer tentativa de manifestar uma total insatisfação com o que aí está: uma rápida rapinagem dos direitos da classe trabalhadora, conquistados após décadas de muita luta e constantes mobilizações da sociedade civil organizada.

Hoje em dia, e especialmente ontem, quando vimos a votação no congresso ser feita sem maiores articulações das centrais sindicais e outras entidades organizadas, e sem nenhuma expressiva demonstração de desagravo pelo povo ao espetáculo tenebroso (a não ser em postagens virtualíssimas), fico a me perguntar, inquieto, por que as coisas estão acontecendo desse jeito, …   já existem muitas elucubrações publicadas por aí, extensas análises que exploram o tema, e mesmo assim essa pergunta fica remexendo dentro de mim. Como estamos deixando as coisas acontecerem desse jeito com a gente?  Como é possível que estejamos permitindo que um processo como esse esteja se dando na nossa cara, sem reagirmos à altura? Como podemos ser, de alguma maneira, coniventes com estas atitudes políticas que incidirão pesadamente sobre o futuro de outras gerações vindouras?

Pesa agora e pesará mais ainda no futuro, sobre os nossos ombros, essa responsabilidade sobre o conformismo que nos atingiu. Não podemos continuar assim. Não dá! Se os instrumentos de que dispomos não têm sido suficientes para uma resposta a estas ocorrências descaradas, que tratemos de imediato de partirmos para uma defesa mais contundente e também mais célere dos nossos direitos, pois é disso que se trata realmente. Um grupo de abusados que se congraçam entre si, nas nossas barbas, sem que tenhamos sido capazes de barrar sua sanha voraz pelo poder. Havemos que reagir, ainda que pela Arte, ainda que pela Educação, ainda que por um projeto novo que unifique-nos como povo, como nação, como pessoas com direito a maior dignidade.

Do meu lado, continuarei na defesa incansável de um país mais justo, mais organizado, melhor ciente de suas responsabilidades, com cidadãos mais bem preparados para reconhecerem o real valor do que somos. E, enquanto artista, mesmo que solitariamente, irei continuar com o propósito de me apresentar outras vezes com o mesmo projeto, contestando com a minha voz essa pauta do atraso, conservada por um congresso sem caráter e enfiada goela abaixo no horizonte já tão precário dos mais pobres desinformados.

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