Entre um Brasil e Outro

4 abril, 2018

2018.

Chegamos a um momento histórico cada vez mais tenso e imprevisível.

Todos os dias acordamos com alguma expectativa em relação aos acontecimentos da política nacional, a confusão entre os poderes, as falsas notícias nas redes eletrônicas, a manipulação midiática em relação ao caos instituído, a exposição vergonhosa do nosso país ao mundo etc.

O contexto é crítico e estamos desnorteados quase completamente. Uma saída a essa crise precisa ser construída, mas estamos reféns de uma paralisia desconcertante, fruto de um certo abatimento sobre o espírito da nação, enredada em jogos diversionistas e situações extremamente graves e inconsequentes.

Em meio a tudo isso, a violência se consumou de forma incontornável (a curto e médio prazo) e nos assombra, nas capitais, nas zonas rurais, ameaçando lideranças e intimidando as populações, assassinando a juventude excluída socialmente e predando a esperança numa vida melhor futura.

Nosso desespero nos exaspera e nos faz buscar alternativas que possibilitem uma travessia desse período tão acidentado e tão cinza. As eleições são – novamente (depois dessa bagunça perpetrada após as últimas, com a cassação do mandato presidencial) – o nosso ancoradouro. Se o regime democrático já não é perfeito, os outros são ainda mais injustos. A reversão desse atropelo que nos atingiu em cheio em 2016, estremecendo a condução de nosso frágil processo democrático, nos faz acompanhar com indignação as transas palacianas, as verbas imorais e os acertos escatológicos perpetrados por toda a classe política, com raras exceções.

Apesar das manifestações públicas, ocupações de prédios federais, greves gerais e demais, todas as estratégias de parte da parcela social insatisfeita com a atual situação não foram até agora suficientes para tirar do poder o ocupante indesejável, responsável por retrocessos inaceitáveis e motivo de constrangimento do Brasil no resto do planeta. O ano passado pode ser contado como de grandes perdas para as classes populares e trabalhadores em geral. Perdas também para as crianças e as gerações futuras, visto que praticamente toda a ação do legislativo federal desse período foi no sentido de acomodar a complexa situação vivenciada pelos atuais ocupantes do Planalto, principalmente referente às duas denúncias da procuradoria geral que os apontou como chefes de uma organização criminosa. De modo que, concretamente, podemos afirmar que estamos sendo governados por bandidos, salvos pelos seus comparsas de uma investigação mais profunda, o que nos envergonhou como país diante do mundo e alterou a imagem que nos esforçamos para criar no século XXI perante outras nações. Mas a sociedade civil, mesmo os movimentos organizados, não foi capaz até o momento de reverter esse estado de coisas, e assim continuamos com esse desafio, que aponta – em síntese – para um desfecho conturbado, sem final feliz.

E assim chegamos a um ponto sem volta.

Mas é a partir dessa realidade escabrosa que temos de enfrentar a situação que nos cerca. Quais caminhos poderão se abrir para construirmos uma rota viável, que nos leve a um novo pacto social, após essas três décadas da chamada Nova República? Que horizontes pesarosos seremos capazes de evitar com a nossa mobilização popular? Como seremos capazes de intervir nesse período turbulento, defendendo bandeiras progressistas e derrotando os argumentos viciados e ultrapassados do conservadorismo? São muitos os desafios sobre que nos debruçar de agora em diante.

Certamente, alguma das opções deve passar por um tipo de aprendizado do qual estamos ainda em fase preliminar: a importância do voto. Seu poder, sua dimensão, sua capacidade, e seus limites. Votar, para a minha geração (que foi a primeira a se manifestar em eleições livres pós 64), pouco passou de um capítulo nos livros de EMC (Educação Moral e Cívica) e OSPB (Organização Social e Política Brasileira), duas disciplinas obrigatórias durante o regime militar. Foi necessário que nós nos empenhássemos para convencer os nossos pais a aderirem a uma nova proposta, apresentada pelo Partido dos Trabalhadores e finalmente vencedora em 2002. Mas o envolvimento com a cidadania não passou de uma empolgação sem maiores efeitos, a não ser em grupos muito segmentados e muito fragmentados também. As conjunturas econômica e cultural global conduziram a uma derrocada do pensamento mais alinhado com as esquerdas, favorecendo um cenário dispersivo, amparado em farta tecnologia, consumismo exacerbado e confusão de ideias.

Nesse movimento cíclico, de altos e baixos, respeita-se a decisão das urnas, que a depender da proposta de seus concorrentes, provocam a alternância de poder. Infelizmente, apesar de todos os esforços, isso foi desrespeitado no pleito anterior, como a história já registra. E tal ocorrência nos levou a uma espiral crescente de fatos desafortunados, em especial para o povo mais humilde e comunidades mais pobres, pra variar. As casas legislativas demonstraram corporativismo e sua atuação foi causa de uma decepção até maior do que esperávamos. O judiciário foi exposto como nunca antes, mostrando seu partidarismo indevido, suas predileções classistas, seu protecionismo aos mais ricos e poderosos. Tudo está sendo visto em lentes ampliadas, embora a mídia tradicional ainda procure esconder, com sua parcialidade, o papel de todos estes agentes na crise.

Nossa resposta mais imediata terá que vir através de um instrumento capaz de pautar uma solução plausível, sem maiores conflagrações que não sejam o debate ideológico, fundamentado, livre, inteligente, poderoso, e que atende também por um vocábulo estranho: o sufrágio, universal. Voto.

Se quisermos retomar a reconstrução do nosso presente, temos imediatamente que recomeçar a pavimentar um novo lastro onde assentemos outra vez a eleição dos representantes populares como inviolável. Com uma diferença: é preciso educar a nossa população para exercer o seu direito com mais consciência e independência. Não devemos descartar a formação de comitês empenhados nesse processo de aprendizado, capacitando cada pessoa a exercer sua cidadania de forma cada vez mais plena e potencializada, refletida na melhoria de suas vidas e no acesso aos direitos justos, não apenas os básicos e elementares, mas a todos aqueles que são portadores da verdadeira evolução de um povo.

Agora, temos que nos dedicar ao trabalho exaustivo para debelar as investidas extremistas mais alteradas, de lado a lado, a maioria ainda restrita ao campo das discussões virtuais, deixar o ódio fora dessa disputa e exigir todas as garantias para que a nova eleição que se aproxima transcorra com normalidade e nos ofereça uma oportunidade de recomeçar.

A hora pede unidade. Só dessa maneira iremos superar esse roteiro lógico prescrito pelos setores que articularam toda essa trama.

Vamos juntos desatar esse nó.

 

originalmente publicado em
http://mineiropt.com.br/artigo/entre-um-brasil-e-outro/

leia a coluna a/cEsso

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