MÚSICA PARA QUEM PRECISA

14 maio, 2019

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É claro e evidente que temos uma prefeitura nova.

Seu novo gestor, público, tem pendores mais afeitos ao show (literalmente).
Suas ações, notadamente as que vem dando o tom de sua administração no tocante à cultura, foram enfatizadas com um banho de arte no Beco da Lama, berço da boemia natalense. Para coroar este direcionamento foi lançado um edital, objetivando compor uma programação para aquela área do centro. Eles aguardam pelos artistas e produtores selecionados, a quem será entregue um valor de R$ 2000 (dois mil reais), através do qual será necessário locar som e luz, um praticável e uma tenda, auxiliar de palco, operadores e, se sobrar algum troco da verba, arcar com uma ajuda de custo para os companheiros do palco, os músicos. Ah, tem que tirar o imposto também, para alguns.

Claro!, estou falando de música, minha linguagem.
Mas a programação é aberta a outras, para onde o auxílio poderá ser mais razoavelmente aplicado, como Marcelo Veni me explicou.
Agora, pra música não.
É pouco.

Todos sabemos os custos relacionados com estúdio, instrumentos, acessórios, ensaios, toda a dedicação empenhada para uma boa apresentação, num nível profissional. Isso envolve uma meia dúzia de gente trabalhando, incluindo aí um quarteto de músicos e dois auxiliares, um na produção e outro na área técnica.

Pois bem!
Hoje começou a ser anunciada a programação junina de Natal.
A novidade é o Zezé de Camargo e o irmão, inclusive uma atração contestada muitas vezes por onde passou em festas do período no Nordeste. Gostos à parte, o que quero destacar é a imensa diferença entre o tratamento que estão recebendo os artistas consagrados daqueles que trilham suas carreiras no chão da cidade. Não sei qual será o cachê da dupla, depois aparece. Mas eu tenho certeza que com o dinheiro empenhado para uns dois únicos shows de figurões em Natal, nós poderíamos desenvolver uma política pública para a música produzida localmente.

A cidade precisa ser decente com quem constroi sua música.
Ela, a música, é uma das principais identidades de um lugar.
O respeito – ou a falta dele – que a gestão cultural do município está dando àqueles que estão se dedicando à composição do seu repertório, tem ficado muito evidente ao longo dos últimos anos (se não já foi sempre). Infelizmente. Os resultados alcançados com a mobilização do segmento musical em suas tentativas de construir e contribuir com suas pautas vem sendo sistematicamente descontinuados, desacreditados.

Já travamos batalhas aguerridas com a Rede Potiguar de Música, o Fórum Permanente de Música do RN, a própria COMPOR, a Cooperativa da Música Potiguar. Não há como negar essas iniciativas como expressões de uma vontade dos artistas de participar de modo mais organizado dessas pautas relativas à construção de uma política voltada para a música que fazemos. Mas não temos tido êxito. As poucas conquistas foram aos poucos sendo destratadas. Conseguimos até representação nas curadorias que selecionam os artistas para os editais. Mas não temos mais.

Enfim, diante de uma situação tão caótica, tão distante do desejo daqueles que se decidiram por aqui viver e trampar com sua arte, embora muitas vezes nos entristeçamos, há também um ponto de perda que é da própria cidade. Ela mesma tem prejuízos muito nocivos quando relega a si mesma, na sua cultura e na sua política, nos tornando estrangeiros, sem reconhecer dignamente o valor do nosso trabalho, nos negando a todos o direito sagrado da arte e a sensibilidade.

Todos perdemos nesses últimos tempos. Mesmo os que ganharam.
Essa escalada de violência por que passamos não se reflete em vão.

Esso (cantautor)

leia a coluna a/cEsso

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