VELHA CERCA DE PEDRAS

3 junho, 2020

velha cerca de pedras
Os dois lados do meu tronco genético são formados por dois elementos que compõem o meu principal trabalho, a Música. Esta, advinda do meu pai. Do lado materno, vem a poesia. Minha família materna é muito admiradora da poesia, especialmente a popular, com dois dos irmãos da minha mãe tendo se dedicado à cantoria de viola por algum tempo das suas vidas.

E até hoje essa paixão incontida alimenta esse sentimento de veneração por essa arte tão genuína e antiga no nosso dna. Nutrido por esse ambiente desde a infância, foi impossível não seguir esse caminho artístico, que aliado à filosofia é a base do tripé com o qual existo para o mundo, desenvolvo meus trampos e experiencio a vida.

Há um mês passamos por uma perda terrível, quando encontramos morto um desses poetas, o mais jovem, caçula entre os irmãos de minha mãe, que residia sozinho no platô do sítio Riacho Grande, bem quando temos que adentrar a pequena propriedade que foi dos meus avós. Sua casa simples ficava exatamente na entrada desse terreno, quase como um posto de passagem de quem tivesse de visita à família. De lá, temos uma visão espetacular das serras que rodeiam a região, especialmente a de Patu, bem à frente, azulando o horizonte infinito que se descortina a quem queira apreciar a paisagem natural e bela. Também é possível vermos na lateral a Serra Redonda, e nos fundos, à maior distância, a chapada onde estão as cidades de Martins e Portalegre. Enfim, é um visual esplêndido que merece uma boa apreciação, ainda se for deitado numa redinha no curto alpendre. De qualquer modo, quando estamos de visita por lá, temos que subir até o local para conseguirmos sinal de celular.

Foi esse o ambiente em que meu tio viveu a parte maior de sua idade, desde o seu casamento, ainda bem jovem. E onde também foi encontrado há um mês atrás, já em avançado estado de decomposição, caído no chão da sua sala, se desmanchando. Ninguém deu por conta de seu sumiço por 3 ou 4 dias, pois sua aparente jovialidade, além da rotina que estava levando atualmente, em pleno período de chuvas no sertão, não deu margem para que ninguém atentasse à sua ausência, que a partir dali seria eterna.

A forma como tudo isso aconteceu nos machucou muito. Todo o processo foi extremamente doloroso, ainda somado ao fato de que estamos atravessando essa pandemia, e sequer pudemos nos despedir dos seus restos. Então, nos restaram apenas as boas recordações do bom acolhimento, que sempre recebemos, dos convites indispensáveis para uma farra com comida e bebida em sua casa humilde, do seu prazer em nos presentear seu legume, e da inevitável lembrança que será para sempre passar pela estrada em frente ao seu terreiro.

Ficaram as roças cheias e viçosas de milho e feijão, jerimuns, melancias e outros cultivos. E os nossos pensamentos bons a adubar o caminho que o seu espírito tenha que traçar a partir de uma nova jornada, que se abre quando passamos desse plano para outro. Que o ambiente sempre fértil da poesia e os estribilhos das canções e repentes de sua viola languente conservem entre nós sua figura, ao mesmo tempo cheia de uma beleza rude, mágoas contidas, expressiva generosidade e uma timidez que só o ambiente inspirador dos versos livres era capaz de destravar, em geral com uma dose.

 

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Uma resposta para “VELHA CERCA DE PEDRAS”

  1. Cassia said

    O sentimento é algo que não se fala, se cala na alma e apenas sente_se o pulsar de algo que vem do nosso interior, as vezes adormecido pelo passar do tempo, mas tao real no que de fato somos. Foi o que vivenciei ao ler sobre seu texto A velha cerca de pedras Esso. Um abraço.

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