PARAIBANDO

18 abril, 2018

Budega (bâner virtual)

Estarei em Jampa, como gosto de chamar João Pessoa, retornando para me apresentar por lá após um hiato de algum tempo. Dessa vez para apresentar oficialmente o meu 3º disco de estúdio, Várzea da Caatinga. Nele estão os ‘forrós magnéticos’, como subtitulei o CD, onde aparecem baiões e xotes vestidos com características mais universais, além da pegada percussiva tradicional.

Aqui está a versão para uma canção que tenho com Pedro Osmar: Lambança. O texto é dele, e nós oferecemos esta música a Celso de Alencar, um poeta paraense com quem nos relacionamos e por quem temos grande admiração.

Aliás, falando nisso, a minha ida até a capital paraibana reflete uma profunda ligação com a música produzida no estado, que nasceu do convívio com o Jaguaribe Carne e ampliou-se quando participei do Musiclube SP, uma experiência iniciada na década passada, quando eu e o Pedro montamos uma célula do grupo em Sampa.

No meu disco anterior, Alma de Poeta, além das parcerias com potiguares, também incluí uma canção minha com o Chico César, pra qual o Leno fez um lindo arranjo vocal. Está lá: Nenhuma Exata Resposta.

Sem contar que o apreço que tenho pela produção musical brasileira me leva a ter no topo da lista dos mais exaltados o nome de Geraldo Vandré, para muito além de Caminhando e Cantando. A textura sonora de sua obra, o engajamento político e até o timbre muito particular de sua voz sempre soaram muito fortes dentro de mim.

Pois agora estarei ali. São duas datas consecutivas: no primeiro dia, a terça 24 (21h), no Café da Usina Cultural Energisa, na R. João Bernardo Albuquerque, 243, em Tambiá, e em sequência, quarta 25 (20h), na Budega Arte Café, à R Arthur Américo Cantalice, 197, nos Bancários.

Entre um e outro haverá ainda a ocasião para um momento na loja de discos mais tradicional da cidade, a Música Urbana, de Robério, onde também faço um pocket-show e um bate-papo no fim da tarde, às 16h. Além dos programas de rádio e em outras mídias possíveis às quais visitarei com o intuito de marcar minha passagem pela cidade querida e demonstrar minha apreciação ao que ela e seus ocupantes simbolizam para mim.

Serão todos/as muito bem vindo/as.
Aguardarei a presença de cada um com uma alegria sincera.

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Entre um Brasil e Outro

4 abril, 2018

2018.

Chegamos a um momento histórico cada vez mais tenso e imprevisível.

Todos os dias acordamos com alguma expectativa em relação aos acontecimentos da política nacional, a confusão entre os poderes, as falsas notícias nas redes eletrônicas, a manipulação midiática em relação ao caos instituído, a exposição vergonhosa do nosso país ao mundo etc.

O contexto é crítico e estamos desnorteados quase completamente. Uma saída a essa crise precisa ser construída, mas estamos reféns de uma paralisia desconcertante, fruto de um certo abatimento sobre o espírito da nação, enredada em jogos diversionistas e situações extremamente graves e inconsequentes.

Em meio a tudo isso, a violência se consumou de forma incontornável (a curto e médio prazo) e nos assombra, nas capitais, nas zonas rurais, ameaçando lideranças e intimidando as populações, assassinando a juventude excluída socialmente e predando a esperança numa vida melhor futura.

Nosso desespero nos exaspera e nos faz buscar alternativas que possibilitem uma travessia desse período tão acidentado e tão cinza. As eleições são – novamente (depois dessa bagunça perpetrada após as últimas, com a cassação do mandato presidencial) – o nosso ancoradouro. Se o regime democrático já não é perfeito, os outros são ainda mais injustos. A reversão desse atropelo que nos atingiu em cheio em 2016, estremecendo a condução de nosso frágil processo democrático, nos faz acompanhar com indignação as transas palacianas, as verbas imorais e os acertos escatológicos perpetrados por toda a classe política, com raras exceções.

Apesar das manifestações públicas, ocupações de prédios federais, greves gerais e demais, todas as estratégias de parte da parcela social insatisfeita com a atual situação não foram até agora suficientes para tirar do poder o ocupante indesejável, responsável por retrocessos inaceitáveis e motivo de constrangimento do Brasil no resto do planeta. O ano passado pode ser contado como de grandes perdas para as classes populares e trabalhadores em geral. Perdas também para as crianças e as gerações futuras, visto que praticamente toda a ação do legislativo federal desse período foi no sentido de acomodar a complexa situação vivenciada pelos atuais ocupantes do Planalto, principalmente referente às duas denúncias da procuradoria geral que os apontou como chefes de uma organização criminosa. De modo que, concretamente, podemos afirmar que estamos sendo governados por bandidos, salvos pelos seus comparsas de uma investigação mais profunda, o que nos envergonhou como país diante do mundo e alterou a imagem que nos esforçamos para criar no século XXI perante outras nações. Mas a sociedade civil, mesmo os movimentos organizados, não foi capaz até o momento de reverter esse estado de coisas, e assim continuamos com esse desafio, que aponta – em síntese – para um desfecho conturbado, sem final feliz.

E assim chegamos a um ponto sem volta.

Mas é a partir dessa realidade escabrosa que temos de enfrentar a situação que nos cerca. Quais caminhos poderão se abrir para construirmos uma rota viável, que nos leve a um novo pacto social, após essas três décadas da chamada Nova República? Que horizontes pesarosos seremos capazes de evitar com a nossa mobilização popular? Como seremos capazes de intervir nesse período turbulento, defendendo bandeiras progressistas e derrotando os argumentos viciados e ultrapassados do conservadorismo? São muitos os desafios sobre que nos debruçar de agora em diante.

Certamente, alguma das opções deve passar por um tipo de aprendizado do qual estamos ainda em fase preliminar: a importância do voto. Seu poder, sua dimensão, sua capacidade, e seus limites. Votar, para a minha geração (que foi a primeira a se manifestar em eleições livres pós 64), pouco passou de um capítulo nos livros de EMC (Educação Moral e Cívica) e OSPB (Organização Social e Política Brasileira), duas disciplinas obrigatórias durante o regime militar. Foi necessário que nós nos empenhássemos para convencer os nossos pais a aderirem a uma nova proposta, apresentada pelo Partido dos Trabalhadores e finalmente vencedora em 2002. Mas o envolvimento com a cidadania não passou de uma empolgação sem maiores efeitos, a não ser em grupos muito segmentados e muito fragmentados também. As conjunturas econômica e cultural global conduziram a uma derrocada do pensamento mais alinhado com as esquerdas, favorecendo um cenário dispersivo, amparado em farta tecnologia, consumismo exacerbado e confusão de ideias.

Nesse movimento cíclico, de altos e baixos, respeita-se a decisão das urnas, que a depender da proposta de seus concorrentes, provocam a alternância de poder. Infelizmente, apesar de todos os esforços, isso foi desrespeitado no pleito anterior, como a história já registra. E tal ocorrência nos levou a uma espiral crescente de fatos desafortunados, em especial para o povo mais humilde e comunidades mais pobres, pra variar. As casas legislativas demonstraram corporativismo e sua atuação foi causa de uma decepção até maior do que esperávamos. O judiciário foi exposto como nunca antes, mostrando seu partidarismo indevido, suas predileções classistas, seu protecionismo aos mais ricos e poderosos. Tudo está sendo visto em lentes ampliadas, embora a mídia tradicional ainda procure esconder, com sua parcialidade, o papel de todos estes agentes na crise.

Nossa resposta mais imediata terá que vir através de um instrumento capaz de pautar uma solução plausível, sem maiores conflagrações que não sejam o debate ideológico, fundamentado, livre, inteligente, poderoso, e que atende também por um vocábulo estranho: o sufrágio, universal. Voto.

Se quisermos retomar a reconstrução do nosso presente, temos imediatamente que recomeçar a pavimentar um novo lastro onde assentemos outra vez a eleição dos representantes populares como inviolável. Com uma diferença: é preciso educar a nossa população para exercer o seu direito com mais consciência e independência. Não devemos descartar a formação de comitês empenhados nesse processo de aprendizado, capacitando cada pessoa a exercer sua cidadania de forma cada vez mais plena e potencializada, refletida na melhoria de suas vidas e no acesso aos direitos justos, não apenas os básicos e elementares, mas a todos aqueles que são portadores da verdadeira evolução de um povo.

Agora, temos que nos dedicar ao trabalho exaustivo para debelar as investidas extremistas mais alteradas, de lado a lado, a maioria ainda restrita ao campo das discussões virtuais, deixar o ódio fora dessa disputa e exigir todas as garantias para que a nova eleição que se aproxima transcorra com normalidade e nos ofereça uma oportunidade de recomeçar.

A hora pede unidade. Só dessa maneira iremos superar esse roteiro lógico prescrito pelos setores que articularam toda essa trama.

Vamos juntos desatar esse nó.

 

originalmente publicado em
http://mineiropt.com.br/artigo/entre-um-brasil-e-outro/

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O VELHACO

8 janeiro, 2018

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Velhaco,

Tua lábia não me engana

Sua pose de bacana não me impressiona

Nem o teu discurso mole, varicoso

Insosso, sem gosto ou sem gozo

Quase morrendo, arfando …

 

Velhaco,

Ter que te aturar é um saco

É um fardo do caralho esse barraco, mana

Suportar esse vil e sua infâmia

Esse pato disfarçado, à paisana

Sendo usado pra foder com o Brasil

 

Eu não tenho medo de você

De sua feiura, de sua usura

Nem da sua sanha para nos vender

Nunca vou ter medo de você

Não vou me entregar

Nem jamais temer

 

A história te abrirá uma cova …

Os cavalos correram de novo sob o gramado

As pessoas, pisoteadas e agredidas com cassetetes

Irão, decerto, reagir juntas a essa violência

Teu destino irá cruzar com as pontas das pedras pontiagudas

Por mim, nós iríamos até o fim, até o fim,

E não desistiríamos de lutar por nada

Nada, nada, nada, nada

 

O velhaco possui mãos tortas

De dedos com ossos desconjuntados

O velhaco tem a bexiga frouxa,

Passeia escorchado na esplanada,

Jogando ao chão uma moeda suja

Pros cães a que consegue comprar

 

Uma cadela, na sua ânsia de me morder,

Me arreganha seus dentes afiados,

Rangendo, furiosa, seu ódio.

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MAKELY AQUI OUTRA VEZ

18 novembro, 2017

Mak Ka

Makely Ka passou por Natal para apresentar-se e às suas canções.
A acolhida deu-se no palquinho do Itajubá Memorial – Espaço Cultural, na Ribeira.
Foi tudo muito rápido, e até meio improvisado, mas acabamos por nos arranjar de modo a não desperdiçarmos a oportunidade de sua vinda.

Por lá, onde já temos certa intimidade, devido ao projeto Quintal Autoral, recebemos o público convidado e nos instalamos sob o céu aberto para ouvir primeiro Samir Almeida, que nos brindou com uma música nova e inédita. Depois apresentei “Presente Amigo”, canção para o meu pai que integra o repertório do meu disco novo. E aí Makely destrinchou, com sua verve afiada e sua viola desencapada, uma penca de suas músicas, algumas presentes em Cavalo Motor, seu disco mais atual, outras ainda sendo mostradas aos poucos, dando origem à relação das faixas que farão parte do seu próximo trabalho a ser gravado.

Makely Ka é um artista dos mais atuantes do nosso tempo, pois possui capacidade para se envolver em várias atividades, desde pedalar o sertão mineiro (projeto que embasou o CD Cavalo Motor) até discutir políticas públicas para áreas diversas, incluindo a cultura artística. É autor de um bom punhado de canções, sozinho ou em parceria, e vem sendo registrado por vários intérpretes da cena contemporânea mineira e demais gentes de outros quilates.

Minha aproximação com esse sujeito vem do envolvimento que tivemos com a estruturação do segmento musical durante a gestão da pasta cultural por Gilberto Gil e Juca Ferreira no MinC, alargou-se com o compartilhamento e o investimento nosso na plataforma do cooperativismo musical (ele lá, eu cá), e expandiu-se através da nossa arte e empatia por temas comuns, como a integridade ética e estética dos nossos sons, discussões filosóficas e místicas, amor pelo belo e a vontade corajosa de cantar e tocar.

De modo que tem sido sempre um prazer encontrar esse parceiro, seja nas lutas seja nas festas, seja nas alturas, seja de que modo for. Mais especialmente dentro da música, onde seu vocabulário sonoro e poético é fluido, carregado de ironias disso(n)antes que ele sabe bem cultivar.

Foi uma alegria redobrada em tudo, rever compadres, receber pessoas e ao lado delas experienciar um bom momento conjunto, embalados numa noite com muita música orgânica. Ao final do encontro ainda tivemos as participações de Markus Silva e Yrahn Barreto. E Giovanni Rodrigues.

Super.

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Festa em Cordes

19 agosto, 2017

la talv

Parte da minha vinda à França estava programada para uma visita a Daniel Loddo, em Cordes sur Ciel. Trata-se de uma cidadezinha construída na idade média, na região occitan, no sul do país, da qual Toulouse é o centro mais importante.

Daniel Loddo ao lado de Céline Ricard, sua companheira inseparável, participam juntos numa das faixas do meu disco que está pra sair no fim do ano. Juntos, eles conduzem uma associação chamada La Talvera, que mantém um grupo do mesmo nome, todos voltados para a preservação da cultura típica de sua região.

Cordes tem pouco mais de mil habitantes residentes, mas nessa época de veraneio na Europa é bastante visitada. Anualmente a associação realiza em agosto uma festa aqui, com o fim de celebrar seus costumes e tradições, sempre trazendo artistas convidados. Dessa vez foram os catalães do El Pont d’Arcalis, que logo cedo começaram a subir e descer as ruas íngremes de Cordes empunhando seus instrumentos para chamar todos a participarem da extensa programação que se desenrolou até o início da madrugada, concluída com um belo baile que reuniu músicas e danças da Catalunha e da Occitania.

Por causa do evento pude travar contato com outros músicos e associados membros do La Talvera que não tinha tido ainda a oportunidade de conhecer em Natal em 2014, quando a COMPOR recebeu alguns integrantes da associação para dar início a uma aproximação de nossas culturas respectivas. Há evidentes traços e/ou vestígios da presença de elementos musicais e até instrumentos (como o pífano, por ex) que perpassam nossa cultura comum. Também travei contato com o francês mais brasileiro com que cruzei na viagem, que foi o Fanck Rivet, atualmente residente na região de Bordeaux, mas com um currículo de passagens longas pelo Brasil e colaborações diversas com músicos brasileiros.

frankie

com Franck Rivet

Ainda nesse final de semana, antes de retornar a Paris, irei acompanhar Daniel e Celine, além de Fabrice Rougier e Aelis Loddo, a mais um compromisso artístico deles nessa temporada. Nesse período, quando o sol é mais presente por aqui, a agenda de festas populares, geralmente ao ar livre, é mais intensa.

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p ñ diz q ñ fal golpe

 

Em outubro de 2016, junto a Samir Almeida e Júlio Lima, apresentei em Natal o show ‘Pra não Dizer que não Falei do Golpe’. Foi uma iniciativa para demarcar uma posição política e cidadã, e nada teve a ver com qualquer narrativa partidária, inclusive fiz questão que não houvesse qualquer apoio de entidades e precisei recorrer apenas ao auxílio de pessoas físicas para que fosse possível cobrir custos com o local, na Ribeira.

Inicialmente o show-ato (como eu me referi a ele) iria contar com um número mais expressivo de participações, como a de Carol Benigno, Yrahn Barreto e Carlos Zens, mas as dificuldades na confluência das agendas não permitiu. Enfim, … superados todas os trâmites iniciais e tendo finalmente encontrado um lugar que dispusesse das características necessárias ao que pretendíamos mostrar, ele aconteceu para uma plateia pequena, embora significativa.

A princípio, minha ideia era que fizéssemos a apresentação numa escola, preferencialmente em seu auditório, devido também a critérios técnicos, como o tamanho e potência do equipamento a ser usado. Mas não rolou. As tentativas foram inúmeras, mas as ameaças de represálias aos diretores ou professores por parte de projetos como o ‘escola sem partido’ intimidou a todos. Também não queria tocar num bar, pois o formato era mais para um ambiente que não envolvesse a atmosfera sempre tumultuada e barulhenta de um boteco.

Para o repertório, que continha várias de nossas canções, incluímos umas 3 ou 4 de outros autores brasileiros, tendo começado com a belíssima e forte parceria de João Bosco e Aldir Blanc, interpretada em sua versão mais intensa por Elis: a canção ‘O Cavaleiro e os Moinhos’.

O fato é que mesmo com tudo que foi preciso driblar, o showato aconteceu. Claro que o nosso desejo era conclamar todos aqueles que se diziam insatisfeitos com a atual conjuntura para se fazerem presentes, mostrando à sociedade o descontentamento com os rumos que estavam sendo seguidos pela política brasileira, a usurpação do poder por uma quadrilha de corruptos que tinham como sua maior meta barrar investigações que expusessem seus modos nefastos de administrar os bens do povo brasileiro.

É óbvio que não conseguimos nenhuma notinha em qualquer veículo de comunicação de massa, e investimos toda a nossa divulgação em redes sociais eletrônicas, como vimos fazendo muito ultimamente. Mas o que nos surpreendeu, ao menos até certo ponto, foi o pequeno comparecimento do público, nos mostrando que já àquela época reinava uma apatia bem grande em relação a qualquer tentativa de manifestar uma total insatisfação com o que aí está: uma rápida rapinagem dos direitos da classe trabalhadora, conquistados após décadas de muita luta e constantes mobilizações da sociedade civil organizada.

Hoje em dia, e especialmente ontem, quando vimos a votação no congresso ser feita sem maiores articulações das centrais sindicais e outras entidades organizadas, e sem nenhuma expressiva demonstração de desagravo pelo povo ao espetáculo tenebroso (a não ser em postagens virtualíssimas), fico a me perguntar, inquieto, por que as coisas estão acontecendo desse jeito, …   já existem muitas elucubrações publicadas por aí, extensas análises que exploram o tema, e mesmo assim essa pergunta fica remexendo dentro de mim. Como estamos deixando as coisas acontecerem desse jeito com a gente?  Como é possível que estejamos permitindo que um processo como esse esteja se dando na nossa cara, sem reagirmos à altura? Como podemos ser, de alguma maneira, coniventes com estas atitudes políticas que incidirão pesadamente sobre o futuro de outras gerações vindouras?

Pesa agora e pesará mais ainda no futuro, sobre os nossos ombros, essa responsabilidade sobre o conformismo que nos atingiu. Não podemos continuar assim. Não dá! Se os instrumentos de que dispomos não têm sido suficientes para uma resposta a estas ocorrências descaradas, que tratemos de imediato de partirmos para uma defesa mais contundente e também mais célere dos nossos direitos, pois é disso que se trata realmente. Um grupo de abusados que se congraçam entre si, nas nossas barbas, sem que tenhamos sido capazes de barrar sua sanha voraz pelo poder. Havemos que reagir, ainda que pela Arte, ainda que pela Educação, ainda que por um projeto novo que unifique-nos como povo, como nação, como pessoas com direito a maior dignidade.

Do meu lado, continuarei na defesa incansável de um país mais justo, mais organizado, melhor ciente de suas responsabilidades, com cidadãos mais bem preparados para reconhecerem o real valor do que somos. E, enquanto artista, mesmo que solitariamente, irei continuar com o propósito de me apresentar outras vezes com o mesmo projeto, contestando com a minha voz essa pauta do atraso, conservada por um congresso sem caráter e enfiada goela abaixo no horizonte já tão precário dos mais pobres desinformados.

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Lula (lanç CD Tocante)

Mestrinho e Lulinha (foto de José de Holanda)

Estive presente ao lançamento do CD Tocante, de Lulinha Alencar e Mestrinho, acontecido no início desse maio no palco do Sesc Pompeia, em Sampa. O disco reuniu algumas pérolas que seu Domingos compôs para homenagear alguns nomes da música brasileira, o mesmo que os dois sanfoneiros fizeram em relação ao mestre, com quem chegaram a dividir parte de suas vidas profissionais, em noitadas forrozeiras e turnês juninas. Além das regravações dessas obras, tanto Lulinha quanto Mestrinho também gravaram composições próprias, feitas para homenagear seu mestre, declaradamente uma influência definitiva na formação deles.

Lulinha é potiguar e Mestrinho é sergipano, de Itabaiana. Dominguinhos era natural de Garanhuns, pernambucano como Gonzaga. Temos aí uma sequência geracional que dão ao acordeom, a popular sanfona, um uso muito bem apropriado para esse instrumento, tão espetacular. Secularmente mais ligado às artes populares, a partir de Dominguinhos, pela sua personalidade e carisma, além da grande desenvoltura técnica, passou a dialogar com outras linguagens musicais, mais rebuscadas. E é agora explorada nas mais diversas direções, em fusões com o jazz ou amplamente incluída em arranjos de vários gêneros em estúdio ou em apresentações vivas.

No show conjunto prevaleceu o som límpido do solo dos instrumentos, numa performance inusual, com as duas sanfonas conversando, num diálogo inspirado e uma capacidade excepcional dos músicos em respeitar um ao outro, abrindo pausas para as entregas intensas de cada um em seus momentos, deixando nítida a impressão de uma perfeita sincronia entre os dois, convergindo sempre para um ápice comum , que arrebatava o público presente.

O roteiro da apresentação seguiu basicamente o gravado, tendo sido feita uma pequena alteração inicial para abrirem o programa com ‘Ciao, São Paulo’, a única exceção aos autores referidos, sendo esta uma canção composta pelo renomado acordeonista francês Richard Galliano, também dedicada a Domingos e gravada pelos três admiradores confessos do nordestino, falecido poucos meses depois da celebração do centenário de seu padrinho famoso, Luiz Gonzaga.

No palco, a sobriedade de um cabide onde foram dependurados 3 chapéus brancos de couro, típicos da indumentária usada notadamente por Dominguinhos quando de suas apresentações ou em fotografias, a apurada serenidade na iluminação de Pedro Altman e uma competência elegante de Adonias Jr para captar com maestria o som dos dois instrumentos em cena. Quando a música e os músicos são desse tal nível, convém dispensar demais artifícios.

Foi isso. E foi bom assim.

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