PARECE MAS NÃO É

22 julho, 2020

Design sem nome

A concepção de uma política pública e sua implementação continua sendo o almejo da classe artística potiguar, seus agentes e produtores mais diretos. É o nosso calcanhar. Luta antiga, infelizmente essa reivindicação se arrasta penosamente durante nossa atuação ao largo da vida, como artistas que somos, também em certa medida omissos em pontuar com sinceridade a questão.

Basta analisar com mais propriedade a situação e damos de cara com inconsistências explícitas, que aparecem à simples folheada no programa de campanha dessa atual gestão estadual. É certo!, os tempos não são normais. Mas nunca foram mesmo para os trabalhadores da área cultural. Somos um setor ainda profundamente incompreendido diante dessa sociedade predatória em que nos transformamos mundialmente, a olhos vistos, e aqui em nada estamos diferentes do resto desse país velho atrasado. Soamos anacrônicos!

A política cultural do estado não passa de um propósito. Sequer transpõe as linhas das pautas das reuniões institucionais e nunca vai além de uma leitura de lábias. Uma câmara setorial não é apenas um grupo de zap, minha gente.

Há críticas que devemos fazer, e explicitamente.
Não é pelo fato da governadora ir ao lançamento de um livro que devamos inferir que o governo apoia, e mais que isso, aposta/desenvolve (n)uma política cultural para o segmento artístico. Empresta o prestígio da autoridade ao evento, mas não consolida uma demanda justa a um conjunto de atores sociais que são importantes e significantes no tecido da cultura, inclusive na atual conjuntura, onde se demonstra de um fundamento indispensável.

Há muito por fazer. E já estamos mais de ano com o tempo correndo. Urge que haja mobilização para que tenhamos um Conselho Estadual de Política Cultural (CEPC), uma das principais bandeiras do Fórum Potiguar de Cultura, que desde a transição apresenta diretrizes para agilizar a democratização desses espaços de poder. Pede-se também uma Secretaria e, no mínimo, um Departamento de Política Cultural.

Vale a luta!
Vale essa campanha, pelo menos entre nós.
Vale a crítica não-velada, aberta, objetiva, a fim de positivar algo que até o momento deixa mesmo a desejar. Os editais, apregoados, sinalizam pouco. Viu-se agora, por exemplo, nesse mais recente, a quantidade de inscrições no campo da música superar em muito a oferta. Além do que, editais por si só não configuram uma política, planejada, contínua e efetiva, e melhor, articulada e construída com a sociedade civil.

Por ora, estamos diante de uma emergência, eu sei. Estamos sendo socorridos com uma lei nacional e recursos do fundo nacional de cultura e esperamos que durante esse semestre doente nos chegue o básico pão da nossa mesa.

A Arte feita aqui tem fome sim, mas não nos serve mais apenas esse prato frio e repetido, passageiro e fugaz.

 

 

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A despeito de Bolsonaro e de outros párias por aí, como Dória em Sampaulo, a eleição de Fátima Bezerra para o governo do RN trouxe um significado muito distinto para o estado, pois se trata historicamente de elevarmos à condução do destino político potiguar uma pessoa de origem popular para o cargo máximo da administração pública. Sem contar com as comemoradas derrotas de cacifes da oligarquia, que ficaram de fora de suas pretensões de continuarem como representantes legislativos, o que não se confirmou.

Nessa fase de transição, quando são levantados os dados e dadas as condições para o novo exercício a partir de janeiro, estão sendo também anunciados os nomes do secretariado. No segundo escalão, sem maior alarde, vão avançando as composições para a indicação dos gestores que darão a cara a várias pastas, incluindo a Cultura, pela qual responde a Fundação José Augusto no organograma atual.

Nos bastidores, além de uma ou outra discussão paralela, em geral virtual, pra variar, nenhuma discussão mais consistente sobre o assunto. O único que li a especular sobre foi o jornalista Sérgio Vilar, no blogue que assina. E fez bem ao levantar o tema, que não foi além dos comentários. Nenhuma mobilização mais articulada, que mostrasse o quanto o setor cultural progrediu em se fazer representar perante essa estrutura burocrática a que também temos que fazer frente, se tratamos de política pública.

O Fórum Potiguar de Cultura fez um esforço no sentido de construir um documento que chegou a ser entregue às candidaturas, divulgado na mídia, com as diretrizes básicas elencadas pelos agentes culturais, resultante do IV FPC, encontro estadual realizado em agosto. Mas não teve ainda a oportunidade de reforçar o seu papel diante da dialética básica que deve ser estabelecida por um governo que se perfila à esquerda e se elegeu com um discurso democrata.

Diante do caos a que fomos jogados pelas sucessivas administrações, estamos em sérias dificuldades: as ruas da cidade estão escuras, os pontos de ônibus, apagados, a lama fede correndo pelos esgotos, às vezes misturada à sangue. Mas não devemos nos desligar do cuidado que devemos manter com o campo do simbólico, do artístico, do estético, tão aparentemente irrelevante mas ao mesmo tempo tão decisivo, sabemos. É justo através dele que saltamos sobre o obscuro, sobrevivendo com dignidade e decência às intempéries da vida, tais quais as que estão postas no nosso caminho já a partir de 28 de outubro.

Nisso, torna-se óbvio a demanda que consta nas primeiras reivindicações, desde sempre, que é a Secretaria. E para além dela, do seu orçamento e de sua estrutura, que esta seja capitaneada por um gestor plenamente capacitado, empoderado pelo executivo, prioritariamente a partir de uma indicação dos próprios fazedores de cultura e não de conchavos nos gabinetes, onde sempre se corre o risco de uma negociata truculenta e sem sintonia com as necessidades reais dos que são diretamente afetados por tal escolha. Sim, pois assim se faz num programa que leve em consideração a participação ativa dos verdadeiros responsáveis por um mandato eletivo, que é ao fim o povo.

Temos que ir além desse conformismo de que, ganhas as eleições, a equipe seja montada a partir de uma coalizão de forças, que em geral mais parece uma colisão de forças. O novo é que nós mesmos nos mobilizemos e aprendamos a construir e a usufruir do direito que temos de reivindicar para nossos campos os nomes que tenhamos identificado como potenciais gestores de nossas áreas, nossas demandas, nossos projetos, nossos pensamentos. Ao menos levar em conta uma prática que temos que exercer, por direito, e não apenas por retórica vazia.

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