Perdas Doídas

1 dezembro, 2013

Luciano (esq) e Raufy (dir), amigos músicos.

Luciano (esq) e Raufy (dir), amigos, músicos.

Passando, a semana que acabou ontem deixou a música de Natal com duas perdas, para mim igualmente lamentáveis. Na segunda, Manoca Barreto, professor da Escola de Música da UFRN, 49 anos, uma carreira consolidada e reconhecida, 2 discos (mais?), egresso dos primeiros passos do cenário roqueiro da cidade, primórdios dos anos 80, tirou a própria vida e entristeceu a cidade com a notícia de sua decisão fatal.

Na quinta à noite, ao sair para passear com o seu cão, na Cidade da Esperança, o guitarrista Raufy Cavalcante foi surpreendido por três atiradores que se encontravam em um carro e levou 18 balaços, morrendo instantaneamente, sem nenhuma chance de se defender de uma violência desenfreada que grassa pesarosa sob a luminosidade da cidade do sol.

Ambas as mortes foram violentas e abalaram-nos, a todos que trabalhamos com música por aqui e que temos afeto pelos companheiros. Conheci os dois e sei que eram pessoas magníficas e de almas limpas e corações lindos. Senti intensamente a partida precoce desses irmãos de sons, e desejo que suas famílias e seus entes mais próximos possam encontrar conforto para seguirem o cortejo da vida presente, sempre mais difícil após ocorrências tão funestas.

Raufy tinha apenas 33 anos e era um garoto, cheio de uma alegria contagiante, pois simples e espontânea, viva, vibrante e honesta. Residente no bairro onde foi assassinado, colaborou com diversos projetos musicais, autorais ou não, dando com sua guitarra uma imprescindível contribuição ao trabalho de Donizete Lima, também integrante do núcleo musical que sempre caracterizou o local.

Sua partida inesperada me fez lembrar de imediato o Luciano Eduardo (‘basqueteira’), com quem Ralfy vinha tocando nas noitadas de Natal, integrantes da banda Rota 101. Luciano integrou o primeiro grupo a que me filiei aqui, no início dos anos 90, e abrimos uma amizade que já percorreu mais de 20 anos e que foi retomada recentemente com nosso reencontro há pouco tempo.

Estou falando de pessoas que escolheram o horizonte da música para atuar, que criam suas famílias e garantem seu sustento com força, garra e brio, harmonizando as vidas suas e de outros com canções e emoções, embalando alegremente os momentos humanos.

Manoca hoje viu reunido no palco do Parque das Dunas um incontável número de admiradores, profissionais como ele ou simples fãs, que desamparados com sua retirada fortuita celebraram comovidos o seu fim em um show tributado a si.

E quanto a Raufy, vítima de um assassinato terrível, cruel, insidioso, até aqui sem nenhum esclarecimento, recebeu de seus amigos uma homenagem ainda no final de semana, pois o grupo não pôde parar de trabalhar, nem a música, nem o show pode calar.

Que a cada qual, em sua dimensão, seja permitido o sossego e uma extensão feliz de suas passagens terrenas em ares mais amenos e menos difíceis de respirar.

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O Som que Vai

26 novembro, 2013

O Som que Vai      (para ilustrar esse texto, música dedicada à Manoca por Lulinha Alencar)

Singelo.

Talvez seja este um bom termo para adjetivar uma pessoa tão querida. A morte de Manoca abalou grande parte da moçada que lida com a música no RN e além destas fronteiras sísmicas. O chão tremeu.

Com sua ida, sem que nunca mais nenhum instrumento possa de novo produzir algum som através de suas mãos, ficam órfãos muitos dos que com ele aprenderam suas primeiras noções teóricas em música.

Assim, essa alma linda, ajudou a construir o conhecimento de dezenas e mais dezenas de estudantes, acadêmicos ou não, harmonizando o mundo e essa esquina continental quente onde habitamos.

Ser iluminado, agora alado, encontra-lo era como sentir a confiança próxima, sem receio de turbulências, sem histrionismos, sem sobressaltos, sem. Parte de sua beleza estava em sua simplicidade.

Ontem, abrir as mensagens que davam conta de sua morte, mais parecia uma dessas troladas a que estamos nos acostumando a ver espalhadas por aqui.

No entanto, tendo sido cumprido o seu destino entre nós, cá permanecemos a enfrentar a hostilidade dos dias, vivos ainda, a desafiar os empecilhos existenciais e a continuar essa marcha trágica que nascemos para cumprir.

Sua expressão mansa será guardada conosco, pelos que contigo aprenderam, pelos que contigo conviveram, dos mais próximos aos mais distantes, pois sua pessoa sempre inspirou serenidade, firmeza e coragem, até o fim.

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