Adeus, Franklin Mário!

3 junho, 2018

A imagem pode conter: Franklin Mario, sentado

“Tu podes calar a minha boca
Mas não te iludas, não podes calar a minha alma
Mas se por acaso calares minha alma
Ficarei nas almas que calam as bocas
Ficarei nas bocas que não calam as almas”

(texto de Alessandre de Lia musicado por Franklin Mário)

Posso dizer que fui um dos primeiros intérpretes de Franklin Mário (1970-2018).

Atendendo a um convite seu, me juntei a ele e aos músicos Aldo e Luciano Eduardo (Basquetêra) em 1991, para cantar na banda Transe Capitalista, a que sempre me referi como O Transe, que a mim bastava e soava muito bem à existência de um rapaz na disparada velocidade dos 21 anos.

Os ensaios se deram na Cidade da Esperança, dispersos em residências de amigos, mas a maioria expressiva aconteceram na pequena área de entrada da casa dos pais do Franklin, com quem ele morava. A energia era intensa e o espaço curto, tanto pros lados quanto pra cima, onde às vezes acabava por me ferir as mãos o concreto rebaixado do teto durante os saltos a que aquela instigação sonora me levava.

Nunca tive qualquer dúvida que a rápida passagem que fiz tocando ao lado de Franklin e seus amigos, com quem ele já mantinha uma correspondência anterior, foi decisiva para me levar a uma definição mais concreta acerca de minha entrada para esse campo, me autoafirmando profissionalmente e contribuindo significativamente para o meu próprio jeito de compor as minhas próprias canções.

A razão mais lembrada pra isso vinha da força do repertório, pois ali estavam presentes suas criações mais roqueiras, como Criança Inocente (com Caio César), Sangue Azul, Não me Deixe Só, Dores Domadas e Depois do Cansaço, esta incluída no meu primeiro disco. Também registrei no CD Alma de Poeta um texto seu que musiquei, chamado As Mulheres. E ele botou música numa letra que tenho chamada Yellow Brick Road. Junto a Aldo também temos outra parceria: Amazônia Clandestina.

Franklin Mário possuía uma notável riqueza de talento para o universo da composição. Sua diversidade de temáticas, quase sempre na seara das relações humanas, se espraiava sob a riqueza harmônica de sua criação amparada em admiráveis direções melódicas, conjugadas com maestria pelo seu violão muito fluido e também impressionantemente simples. Em suma, ele era dotado de um dom nato, o que o tornou uma referência na música natalense, indubitavelmente.

Embora não tenha sistematizado sua produção, durante uma maior aproximação sua com Júnior Baiano, à época em que este montou um estúdio caseiro, Franklin registrou uma parte de seu repertório, que dividiu em 3 arquivos virtuais, disponibilizados por Antoanete Madureira na internete: Temporário, Ingênuo e A Cidade em Movimento. Os registros não possuem sequer os nomes das músicas e muito menos os de seus parceiros, mas passam a ser de agora em diante uma fonte de acesso ao seu material. Consta ainda um outro registro com os poemas que ele musicou de Oreny Júnior, este com mais detalhes.

Num disco em que se codinominou Mulambêra, Júnior gravou várias canções do amigo e parceiro, muito bem arranjadas e tocadas por Jubileu Filho e gravada no Studium, por Jota Marciano. Já agora, na sua despedida, poucos dias antes de sua partida, ele próprio postou e divulgou Traçados, seu álbum em parceria com Antônio Ronaldo, registrado profissionalmente em estúdio, com a regência de Donizete Lima e sob a mão cuidadosa de Sérgio Farias. Esse foi também o tema de nossa última conversa, há cerca de dois meses. Sem saber, nos despedíamos ali.

O bairro da Cidade da Esperança, com esse nome tão poético, foi o berço artístico de Franklin, que nasceu nas Rocas. Foi lá que viveu a grande maioria dos seus dias, enraizando-se na vida social da comunidade, formando e saindo de bandas que apresentavam-se na festa da padroeira e, nos últimos anos de sua boemia, a reunir-se a amigos e admiradores no Bar do Aurino, onde suas músicas eram tocadas e entoadas uma atrás da outra. O local se transformou por um longo período em sua segunda casa, de onde saía muitas vezes trôpego, deixando preocupados seus pares ao atravessar a avenida da frente.

Deve ser lá também que, a depender de Dina Guedes, se fará uma justa reunião das amizades que prezavam tanto a figura desse compositor de muitas qualidades, de uma produção nada desprezível, com o fim de manter acesa não só a sua memória mas também a sua obra, que deve reverberar tanto quanto tempo mais se passe, preservando-o entre nós para sempre.

Escrever esse texto é dar o meu testemunho acerca da importância de um dos mais profícuos compositores do meu tempo, que nos deixa uma obra vasta, eclética e bela.

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Eu não sou um artista local. Eu não me sinto assim.
Nem nunca fui um artista da terra, não, muito menos.
A minha arte sempre nasceu com o sentido de expressar meu interior, as vísceras, e através dela, arte, saltar sobre a realidade, me devanear.

Foi assim que retomei minha atividade com a música em 2017:
as primeiras sessões de gravação do disco Várzea da Caatinga, após alguns anos de gestação, e agora em março com a turnê do CIMA, o Circuito Itinerante de Música Autoral.

CIMA MAPA

Na Abertura do CIMA (foto de Rodrigo Cruz)

O roteiro começou no dia 07 de março (7 da noite), no Esp Cult MAPA, localizado no shopping Mideimal, em Natal/RN. Ao lado de Samir Almeida, meu parceiro já de boas músicas, aproveitei para lançar a campanha de financiamento colaborativo para a prensagem do CD, que está previsto para vir à luz no último trimestre do ano. A abertura foi por conta de um recital com Chico Morais e o sertão do Seridó o mote dos seus versos.

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No Auditório da Biblioteca (foto de Francesco Rodrix)

No dia 08 (às 3 da tarde), em articulação com o professor Francesco Rodrix e a direção da Biblioteca Américo Costa, localizada na Av Itapetinga, ZN de Natal, me apresentei para uma plateia de alunos da rede pública, que vieram em marcha a pé para o nosso encontro. Foi especial. Geraldo Luiz, meu colega desde o tempo da Filosofia na UFRN foi quem recitou no início.

CIMA Sta Cruz IX

Com Wilka, Hélio e Gilberto em Santa Cruz.

CIMA Sta Cruz III

Auditório da FACISA – Sta Cruz (foto de Robson Ramon)

Dia 09, cedinho, peguei a estrada para Santa Cruz. O primeiro passo foi encontrar com Marcos Silva, que foi um parceiro de primeira hora nessa articulação, desde o início. Seguimos de imediato para a rádio comunitária para uma ótima entrevista, e logo em seguida para o auditório da FACISA, onde aconteceria a apresentação e onde fizemos todos os ajustes técnicos e um breve ensaio com Wilka Guimarães, que participaria comigo num dueto na bela canção O Peixe Nada, de Mazinho Viana com letra do poeta cordelista Antônio Francisco. A dupla de poetas da APOESC, Gilberto Cardoso e Hélio Crisanto arrasaram no começo. O #ForaTemer foi garantido pela plateia presente sem arrego.

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Com Wescley J. Gama, em Currais Novos 

A data seguinte, 10 de março (21h) era a vez de Currais Novos. Já havia me apresentado antes na cidade e minha ligação com a produção artística do lugar já é antiga. Fui precedido por um recital poético efusivo, com participações abertas aos presentes, incluindo Edrisi Fernandes e Paula Érica, que foi quem armou para que tudo acontecesse por lá. Wescley J Gama participou das músicas iniciais do show que fiz e cantamos dele e Iara Carvalho a bela canção ‘Abelhas’.

CIMA Caicó IV

No Salão Nobre, em Caicó 

11 de março foi a data reservada para Caicó. Há tempos já intentava me apresentar na cidade e quem tornou isso possível foi um camarada que só pude conhecer pessoalmente ao chegar lá: Alexandre Muniz. Logo seguimos para a Rádio Caicó, pra uma entrevista no programa Mesa Redonda, e após esse primeiro compromisso, um pouco mais tarde, fui levado pelo Alê até o Salão Nobre (da antiga prefeitura), onde aconteceria o show. Os poetas Edcarlos Medeiros e José Fernandes deram as boas vindas ao público com um recital de poesia popular espetacular.

Cima em Cruzeta - radio

Cruzeta (com Ivanildo Dantas)

Domingo, 12/03, às 17h, na sede da Banda Filarmônica de Cruzeta, fomos antecedidos por uma chuva torrencial, dessas de lavar até a alma sertaneja, e a alegria que as pessoas da cidade expressavam era nítida e genuína. Por lá, Bembem Dantas, maestro da banda local é que foi o elo. Através dele, que cedeu o salão para a apresentação, entraram em cena outros apoiadores, entre os quais estavam o Ivanildo Dantas, diretor da rádio eletrônica Três Rios, que transmitiu tudo pela web.

Nesse final de semana (25/03) irei fazer uma viagem para fazer articulações no Oeste, que ficou todo de fora. Vou à capital da região, Mossoró, para contato com grupos e/ou pessoas que podem abrir alternativas ao fato de que uma cidade com esse porte não deve ficar de fora da rota do CIMA no ano que vem. Também estou aproveitando a ocasião para abrir grupos virtuais que mistura artistas e produtores e que visem amadurecer a ideia do circuito, implantando-o e profissionalizando-o.

matriz p cartaz MacaíbaE no último dia do mês faço o encerramento da turnê no auditório da Casa de Cultura de Macaíba, fechando com uma alegria imensa essa experiência maravilhosa. Agradeço carinhosamente a todos citados aqui ou em postagens posteriores sobre o assunto e sigamos firmes em frente.

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Bico na Câmara

13 agosto, 2016

Foi lançada por esses dias, em convenção partidária, as candidaturas do PT à prefeitura de Natal. Homologados os nomes de Fernando Mineiro para prefeito e entre os vereadores o de Rodrigo Bico.

Bico, como o chamamos os que somos seus amigos ou mais próximos a ele, vai disputar pela segunda vez uma vaga na câmara municipal de Natal, e desta vez sua probabilidade de ser eleito se ampliou consideravelmente, já que alcançou a primeira suplência no pleito anterior e se expôs de forma substancial em ações de grande alcance, tendo inclusive assumido os destinos da FJA por alguns meses na gestão de Robinson Faria.

Há também uma forte adesão dos segmentos artísticos à inclinação de Rodrigo Bico a representar o chamado setor cultural, que é amplo, diversificado e vai muito além da arte, convenhamos. Mas chamo a atenção para discutirmos alguns aspectos merecedores de questionamentos e creio que devemos aproveitar o ensejo da campanha para colocar em pauta.

Nesse breve texto, que não se prestará a encadear estes pontos, eu simplesmente desejo lembrar antes de tudo, e a todos, que pelo simples fato de mantermos uma relação de proximidade com um candidato, isso nem sempre deve implicar em acompanha-lo cegamente em sua campanha. Aliás, para mim, quanto maior o grau de proximidade com o político, devemos insistir no aprimoramento de um projeto para o mandato, buscando esgotar o dimensionamento das propostas, de que modo elas irão impactar o eixo de nossa comunidade e de que forma poderemos contribuir com sua formatação e posterior execução.

Nós, brasileiros em geral, temos errado muito nesses últimos anos quando o assunto é esse: o voto. A prova está aí, com o congresso, assembleias e câmaras municipais recheadas de vergonha, pura vergonha. Gente despreparada e partidos conchavados com os mais espúrios valores, farta corrupção e falta de caráter, resultando no desastre que se abate sobre nós nesta hora penosa.

Por isso, no meu entender, quem desejar participar desse processo eleitoral, seja como candidato, cabo eleitoral ou simples eleitor, deverá adotar uma postura crítica incisiva, vigilante, questionadora, contribuindo para a própria formação das novas lideranças eleitas, iniciando a renovação de um ciclo que tem que por o país num outro caminho, e não mais nos deixar à mercê dessa miséria cíclica, que tem feito com que novas eleições não signifiquem qualquer mudança.

No caso de vir a ser eleito, Bico será um dos vereadores mais jovens da câmara municipal, certamente, e o mandato poderá ter uma atuação diferenciada em relação a políticas públicas para a juventude, que naturalmente poderá imprimir uma dinâmica muito forte ao que vier a acontecer. É preciso também que a própria militância cobre dos seus partidos mais independência para seus representantes legislativos, que as executivas sejam mais flexíveis em relação às necessidades dos filiados e atendam de fato aos anseios dos que desejam mudanças e apostam nessas mudanças.

Virão?

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ser tão potiguar itajuba memorial

Yrahn Barreto
é atualmente um dos artistas potiguares mais atuantes na cena da cidade.

Sua música, de alta qualidade, construída em solidão ou com parcerias, vem sendo apreciada e divulgada nas suas incursões pela noite natalense. Autor de 2 CDs, Geração e Ao Gosto dos Anjos, Yrahn faz na próxima sexta o encerramento da temporada Ser Tão Potiguar, às 21h30 no Memorial Itajubá – Espaço Cultural, situado à Rua Chile, 63, na Ribeira.

No repertório dessa temporada junina estão as suas melhores músicas gravadas, além de peças inéditas que devem integrar seus próximos registros, somadas ainda a versões especiais para outros autores daqui e de fora que são de alguma forma importantes para sua formação musical e revela a influência de sua relação profissional com a linguagem na qual trabalha.

A ocasião, mais uma que se abre ao público apreciador da produção musical da capital, está personalizada com características que identificam os festejos juninos próprios dessa estação, e conta com detalhes como sorteio de balaio e demais trejeitos que são comuns ao período. A grande onda é que, também como já é costume, Yrahn vai se apresentar sozinho e usará como recursos percussivos batuques e efeitos eletrônicos pra fazer o povo dançar e arrastar o pé. Como foram todas as sextas-feiras de junho, a próxima agora é justamente a noite do dia de São João.

O memorial oferece um ambiente diferenciado para a proposta, que é a valorização do trabalho criativo do artista local. O espaço cultural, acolhedor e amplo, dispõe de uma sala para galeria de artes, bar e uma área externa condizente com o perfil do seu mais ilustre ocupante: a casa foi residência de Ferreira Itajubá, um dos poetas referenciais da literatura norterriograndense. O lugar também vem sendo ocupado pelos músicos da cidade às primeiras quintas do mês para um encontro informal e artístico chamado Quintal Autoral.

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CHUVA DENTRO DO MAR

4 junho, 2016

ganh 3 midwayMais um edital público foi aberto e fechado em Natal para o setor musical.

Dessa vez tratou-se do recurso para custear a cerimônia da passagem da tocha olímpica.

Mesmo que extemporâneo, o concurso (que ao fim das contas é o que um edital público é) revela mais uma vez em seu resultado que Valéria Oliveira e Krhystal Saraiva se saíram com as melhores pontuações. Parabéns às duas e aos seus trabalhos, consistentes e aguerridos.

Porém, não nos deixa de chamar a atenção alguns relances que poderiam suscitar algumas reflexões, e é o que quero fazer com esse artigo, sem demérito do trabalho de quaisquer artistas nele citados diretamente, ou mesmo a qualquer outro que porventura venha a se sentir incluído. O foco aqui não é discutir arte e trabalho de artistas. Longe disso. Não é algo que costumo fazer, nem mesmo numa esfera privada, pois nutro um profundo respeito pela produção criativa de muitos artistas do lugar.

Explicado isso, antes de mais nada também convém salientar que o que abordo aqui é o edital público, da esfera pública, ou àqueles que são feitos pelas empresas privadas mas com recursos da renúncia fiscal, o que dá quase no mesmo. Chamadas públicas feitas com o dinheiro próprio do caixa da empresa, claro, podem muito bem serem direcionadas para onde lhes é conveniente.

Mas não é o caso. Estou tratando aqui de dinheiro meu, de dinheiro do contribuinte, onde certamente podemos (e devemos opinar), sem receio de que ao fazermos isso estejamos invadindo um terreno sacramentado pelo mercado, o que já é outra história. O que me interessa, enquanto cidadão e músico, é a abertura de possibilidades que possam no mínimo permitir que o processo de proposição e avaliação de uma chamada pública, principalmente as que forem conduzidas por órgãos e entidades públicas ou mistas (como é o caso do Sebrae), possam oferecer as condições apropriadas para uma análise criteriosa e justa, mas também ampla, diversificada, garantindo no seu resultado uma maior representatividade de conteúdos e propostas.

Com toda franqueza, não é o que vem acontecendo aqui. A formação das comissões avaliadoras, que são ao fim responsáveis pela definição de quem entra e quem sai estão sendo montadas sob um mesmíssimo perfil, geralmente com os nomes de sempre, e algumas vezes com pessoas que tem relações diretas com os trabalhos selecionados. Isso é imoral. Pode até ser legal, mas é imoral.

Embora diante de todo o rito das várias fases, sabemos que é a etapa classificatória quem define o resultado final. E é aí que reside a questão: se não forem constituídas comissões com perfis diferentes, com integrantes diversos que possam representar outras facções ou segmentos específicos, eles nunca estarão na lista vencedora e esta trará sempre mais do mesmo. É a isso que estamos assistindo, já por muito tempo: os resultados em sua maioria são favas contadas.

Infelizmente, com a cristalização desse modelo, muitos outros bons artistas estão deixando de participar da concorrência. No carnaval, por exemplo, se tentou até um boicote ao modo como a condução da chamada pública foi feita. Eu mesmo, apesar de ter sempre procurado apresentar propostas, atualmente estou mais interessado em questionar essa metodologia e investindo minha energia nisso, pois do que adianta participar de editais que sucessivamente apresentaram resultados tendenciosos?

Para mim, quem perde mesmo de verdade é a cidade, que fica sempre com essa pecha de que há arrumadinhos no que faz. E perde de mostrar ao seu público a diversidade musical de que se constitui. Também não cai bem para a prefeitura, que deveria zelar pela lisura de sua administração e comete acintosamente desrespeito aos pleitos públicos, travestindo de processo democrático algo que exaustivamente vem sendo criticado por significativa parte de seus artistas. Só não vê quem não quer. E ainda por cima, tem descartado o apelo que vem sendo feito sistematicamente para que esta situação seja revista e ajustada. Pois qual será outra a razão para que a Funcarte não tenha aceitado mais a participação de membros da sociedade civil organizada dentro dessas comissões?

A resposta dorme no escuro.

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bosco fpc

Bosco Araújo (UFRN) ladeado por Artemilson Lima (IFRN) profere sua fala no III FPC

O que está acontecendo com o setor cultural neste momento, se tratando da gestão estadual, mostra que a chamada classe artística potiguar e seus demais agentes é uma segmentação social ainda apenada pela falta de senso coletivo, em busca de uma maturidade que vem nos deixando à deriva no campo político, como se fôssemos desligados de um processo que faz parte de nossa dimensão humana enquanto seres pensantes.

Apesar da queda de dois gestores em menos de um ano, não se esboçou de forma sistematizada qualquer movimentação no sentido de dialogar com as chefias do governo uma saída para uma situação tão desfavorável. Ainda mais quando, durante a campanha, o hoje governador assumiu vários compromissos com os agentes culturais, inclusive o de nomear um gestor indicado por estes.

Claro que os problemas no âmbito da cultura vão além e muito além da gestão, e que muitas outras questões precisam ser encaradas em relação ao descalabro que é essa fundação, desde sua fundação. Mas o fato é que é na gestão que se faz a diferença; tanto que é a pessoa gestora quem simboliza uma determinada fase, consolida um modelo, ou ao menos torna-se uma referência frente a instituição.

E o certo é que após mais de 10 dias do rompimento partidário que ocasionou a saída do diretor geral da FJA do seu cargo, ainda nos encontramos acomodados em nossos assentos à espera do que será decidido pela cúpula do governo e seus cupinchas, sem nenhuma qualquer mobilização aparente, sem propostas, sem discursos, sem denúncias. Sem.

Como tivemos um encontro do fórum potiguar de cultura na semana passada, notadamente este foi um assunto que perpassou as conversas informais e se infiltrou na programação, mas também mais uma vez saímos sem um encaminhamento claro em relação à abertura de uma interlocução com o governo no tocante ao ambiente cultural e às políticas concernentes.

Aliás, o fórum, a meu ver, deveria constituir uma comissão formada por integrantes das linhagens artísticas e dar continuidade ao fortalecimento das causas comuns que imploram para serem tratadas numa luta conjunta, que não tema o exercício de nosso protagonismo cidadão, pois na atualidade tem sido imprescindível a construção de plataformas de interação que busquem representar seus interesses diante dos desafios intrínsecos ao fazer cultural.

Não é por sermos artistas que não tenhamos que nos unir em face de determinadas ocorrências. Desse jeito, apenas setores mais engajados na criação de políticas para suas respectivas áreas, industrial e/ou comercial (por exemplos), conquistarão avanços significativos, enquanto sobrará para nós o papel de reclamantes e a pecha de alienados.

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A Ótica da Ética

17 março, 2016

Venho acompanhando a situação há algum tempo, observando mais de perto o cenário desde as jornadas de junho de 2013, e com mais intensidade nesses últimos lances. A patetice histórica da política partidária brasileira ganhou capítulos cada vez mais emocionantes, tendo chegado ao seu auge nessa noite obscura de ontem, 17 de março.

Anteontem, essa trama ganhou contornos inacreditáveis, com a divulgação de audios envolvendo a presidência da república, dando a partida a uma animosidade mais expressiva da população, que já vinha previsivelmente se esfregando desde a prisão coercitiva do ex-presidente. O ato, como se sabe, soou indecoroso, abortou a condução do investigado para Curitiba e repercutiu frontalmente a onipotência do judiciário perante a figura do velho operário, chamando a atenção do país para o tratamento diferenciado que foi dispensado ao peão petista.

A mim, importa sumariamente que sejam dadas garantias constitucionais que permita o aprofundamento das investigações contra a corrupção, inclusive as que estão em curso aqui no RN, que envolve de senador da república até os fanstaminhas da Assembleia Legislativa, passando pela procuradora-geral da casa e seu filho, os desvios nos contratos dos grupos musicais pelas prefeituras municipais, os crimes insolúveis ou sequer investigados da periferia, enfim, tudo. E todos. Mas o que vimos assistindo desde muito tempo antes desse, há aproximadamente cinco séculos, tem sido o olhar severo de uma justiça que não é isenta nem imparcial, que favorece os mais ricos e desce com força sua chibata sob o lombo dos pretos (ainda), pobres e desvalidos sociais. Juízes deslumbrados e partidarizados satirizam em suas sentenças as distinções dos seus cargos, dando carteiradas na nossa cara, todos os dias.

A grande mídia, vexatória, aponta sua força para a deflagração de um embate com viés notadamente tendencioso, onde suprime o justo jornalismo por uma pequena pauta de favores aos seus patrões, inviabilizando uma cobertura equilibrada dos fatos, tão essencial para o momento de tensão. A pólvora está para acender. Vamos ao que interessa: a tevê obtusa quer nos jogar dentro de uma guerra, que já começou, aliás. E nas mídias sociais ela já é bastante virulenta. Sem dar-se forma ainda explicitamente, de maneira velada nós já estamos em confronto, em bate-papo constrangentes com amizades queridas, em beligerâncias fotuitas, em ativismos virtuais que vão escorrer para o asfalto das ruas daqui a pouco, nos empurrando para um enfrentamento fratricida. Chega a ser acintoso (mais uma vez) saber que nos protestos marcados para hoje em São Paulo, a avenida paulista já está acampada há mais de 30 horas pelos integrantes do grupo que já a usou para se manifestar no dia 13, justamente em frente ao prédio simbólico da federação dos industriais, com mesas bem servidas cobertas com lençóis de linho branco, onde se refestelam aqueles que pedem a saída da presidente do poder. Desde ontem, já uma série de agressões bizarras foram perpretadas por estes grupos, e suas aparições nos vídeos que não param de postar na internete nos mostra o perfil de um público transtornado, fascistoide, caracterizado por uma alta agressividade a quem não segue seus ritos.

Não parece muito embaraçoso para a elite branca do país ir para as ruas vestindo justo a camisa da seleção brasileira, que como todos sabem, é dirigida por uma tropa de corruptos, tendo sido o seu honorável chefão até há pouco, o Sr. Marin, preso fora das nossas fronteiras como integrante de uma quadrilha internacional que desmoralizou a instituição do futebol e os seus cartolas, acarretando a seus patrocinadores um questionável debate sobre o apoio a um setor tão viciado em negócios podres. Não parece nada embaraçoso, à parte da sociedade brasileira, que hoje tenha sido dada a largada a um processo político de cassação do mandato presidencial eleito democraticamente, justamente por um fascínora, corrupto e corruptor de marca maior.

Não pensava assistir a tudo isso assim, quase de uma hora para outra, com esses desdobramentos tão incendiários, a levar o Brasil novamente para outro recuo ao fosso da ignorância. Quero uma nação mais justa, menos segregadora, mais confiável, mais sadia, mais plena, e sobretudo, mais livre. Por isso, após essa reflexão vigilante, tomei a decisão de ir à rua hoje, para defender essa democracia que, se não atende minha utopia, ao menos alimenta o meu desejo de que um dia, ainda um dia, possamos alcançar um estatuto mais justo de povo, sem distinção entre quem simplesmente toma uma cachaça e quem quer é cheirar o seu pozinho em paz.

Para bom entendedor, meia tonelada basta.

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