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Está sendo lançada em Natal agora pelo fim de 2016 a campanha “Música Potiguar: Nosso Som tem Valor” (#musicapotiguarnossosomtemvalor). Ainda não estou completamente inteirado de como ela se desenrolará, mas não há como deixar de participar de qualquer esforço nesse sentido, nem que seja com esse texto.

E sim!, é verdade. Nossa música tem valor, muito valor até. São valores, inclusive. Mas como sabemos, Valor é uma palavra genérica que podemos aplicar a diversos sentidos. Vamos pegar 2 pra nossa discussão aqui, (se houver): o simbólico e o econômico.

O valor simbólico pode muito bem ser exemplificado pelas recentes postagens alusivas ao Dia do Músico, celebrando a padroeira da música, Santa Cecília. Creio que muitos devem ter visto as muitas manifestações dos músicos, com queixas acerca de suas realidades na cena local, as dificuldades e perrengues por que passam(os), a dureza de ser um ser devotado ao ofício e dele viver e sobreviver. Abaixo dos desabafos dos artistas, as caixas de comentários ficaram repletas de manifestações de apoios valorosos (simbólicos), alguns emanando forças invisíveis que na prática pouco poderiam mudar algo concreto na vida difícil de quem canta reflexões ou alegrias nos clubes, quiosques, bares, festas etc.

O xis da questão é o outro valor, o econômico, financeiro, o que pode materializar o resultado da dedicação dos que se entregam a uma profissão cheia de incertezas e percalços, símbolo expressivo de nossa cultura, mas tratada com uma natural ponta de preconceito que começa por quem acha que músico não trabalha e apenas se diverte. Este olhar, muito comum, é o que faz com que as pessoas em geral reclamem do valor do couvert artístico na conta, ou que menosprezem a atividade profissional de quem estudou, ensaiou, investiu e apresentou seu repertório, seja autoral ou alheio, desvalorizando o trabalho com atitudes de ignorância, e pior, de exploração. (Abra-se parêntese rápido para trazer à tona o duelo jurídico recente entre uma banda daqui e um conceituado festival: abriu-se a causa pelo cachê irrisório oferecido e outras discrepâncias que sempre rolam quando se trata de lidar com os músicos potiguares nos eventos locais).

Seja como for, o certo é que entre o ideal e a realidade sempre encontramos um vácuo bem grande. Qual o valor que as instituições públicas legam à música produzida localmente? Bem sabemos: a prefeitura e o estado são conhecidos por destacar em suas propagandas uma enxurrada de números que não são condizentes com as ações dos administradores, com atitudes até discriminatórias em relação ao pagamento dos cachês locais, ou mesmo sabotando os movimentos e as poucas articulações coletivas dos artistas e grupos da cena natalense, como se deu recentemente com o cancelamento do festival Natal tem Música.

Mas há sim campo para o crescimento e maior valorização de nossa música. E é isso que a campanha quer (vou até enumerar algumas sugestões):
1 Maior abertura das rádios para tocar em horários de maior audiência a produção musical de seus lugares, conscientizando e convencendo os programadores e locutores a destacar os nomes dos intérpretes e compositores das gravações (e referente inclusão das faixas em suas listas de recolhimento de direito autoral);
2 Participação dos departamentos de marketing das agências de propaganda e demais veículos da mídia em geral para usar como fundo musical trechos de criações musicais potiguares nas inserções que vão ao ar nos comerciais, reportagens etc (e referente inclusão das faixas em suas listas de recolhimento de direito autoral);
3 Maior exigência dos músicos em relação aos seus direitos, como camarim básico, estrutura digna para as apresentações, principalmente em relação ao som, cumprimento de acertos contratuais etc, valorizando o seu trabalho frente ao profissionalismo que toda prestação de serviço precisa e deve ter;
4 E ainda um necessário esforço para a aprovação de ao menos uma garantia legislativa (lei) que traga benefícios a este setor, com recursos para fomentar a cadeia produtiva, permitindo o aparecimento de novas gerações de artistas e maior preparo de técnicos e operadores de som e luz, por exemplo.
5 Por fim, a unidade em torno de pontos que fundamentem o crescimento expressivo de uma luta em favor destes e demais objetivos que possam ser positivos para os que exercem esta atividade e aos que dela desfrutam. E a isso se chama Política.

Ah, e antes que eu me esqueça: “músico da terra” é o caralho!

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ser tão potiguar itajuba memorial

Yrahn Barreto
é atualmente um dos artistas potiguares mais atuantes na cena da cidade.

Sua música, de alta qualidade, construída em solidão ou com parcerias, vem sendo apreciada e divulgada nas suas incursões pela noite natalense. Autor de 2 CDs, Geração e Ao Gosto dos Anjos, Yrahn faz na próxima sexta o encerramento da temporada Ser Tão Potiguar, às 21h30 no Memorial Itajubá – Espaço Cultural, situado à Rua Chile, 63, na Ribeira.

No repertório dessa temporada junina estão as suas melhores músicas gravadas, além de peças inéditas que devem integrar seus próximos registros, somadas ainda a versões especiais para outros autores daqui e de fora que são de alguma forma importantes para sua formação musical e revela a influência de sua relação profissional com a linguagem na qual trabalha.

A ocasião, mais uma que se abre ao público apreciador da produção musical da capital, está personalizada com características que identificam os festejos juninos próprios dessa estação, e conta com detalhes como sorteio de balaio e demais trejeitos que são comuns ao período. A grande onda é que, também como já é costume, Yrahn vai se apresentar sozinho e usará como recursos percussivos batuques e efeitos eletrônicos pra fazer o povo dançar e arrastar o pé. Como foram todas as sextas-feiras de junho, a próxima agora é justamente a noite do dia de São João.

O memorial oferece um ambiente diferenciado para a proposta, que é a valorização do trabalho criativo do artista local. O espaço cultural, acolhedor e amplo, dispõe de uma sala para galeria de artes, bar e uma área externa condizente com o perfil do seu mais ilustre ocupante: a casa foi residência de Ferreira Itajubá, um dos poetas referenciais da literatura norterriograndense. O lugar também vem sendo ocupado pelos músicos da cidade às primeiras quintas do mês para um encontro informal e artístico chamado Quintal Autoral.

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CHUVA DENTRO DO MAR

4 junho, 2016

ganh 3 midwayMais um edital público foi aberto e fechado em Natal para o setor musical.

Dessa vez tratou-se do recurso para custear a cerimônia da passagem da tocha olímpica.

Mesmo que extemporâneo, o concurso (que ao fim das contas é o que um edital público é) revela mais uma vez em seu resultado que Valéria Oliveira e Krhystal Saraiva se saíram com as melhores pontuações. Parabéns às duas e aos seus trabalhos, consistentes e aguerridos.

Porém, não nos deixa de chamar a atenção alguns relances que poderiam suscitar algumas reflexões, e é o que quero fazer com esse artigo, sem demérito do trabalho de quaisquer artistas nele citados diretamente, ou mesmo a qualquer outro que porventura venha a se sentir incluído. O foco aqui não é discutir arte e trabalho de artistas. Longe disso. Não é algo que costumo fazer, nem mesmo numa esfera privada, pois nutro um profundo respeito pela produção criativa de muitos artistas do lugar.

Explicado isso, antes de mais nada também convém salientar que o que abordo aqui é o edital público, da esfera pública, ou àqueles que são feitos pelas empresas privadas mas com recursos da renúncia fiscal, o que dá quase no mesmo. Chamadas públicas feitas com o dinheiro próprio do caixa da empresa, claro, podem muito bem serem direcionadas para onde lhes é conveniente.

Mas não é o caso. Estou tratando aqui de dinheiro meu, de dinheiro do contribuinte, onde certamente podemos (e devemos opinar), sem receio de que ao fazermos isso estejamos invadindo um terreno sacramentado pelo mercado, o que já é outra história. O que me interessa, enquanto cidadão e músico, é a abertura de possibilidades que possam no mínimo permitir que o processo de proposição e avaliação de uma chamada pública, principalmente as que forem conduzidas por órgãos e entidades públicas ou mistas (como é o caso do Sebrae), possam oferecer as condições apropriadas para uma análise criteriosa e justa, mas também ampla, diversificada, garantindo no seu resultado uma maior representatividade de conteúdos e propostas.

Com toda franqueza, não é o que vem acontecendo aqui. A formação das comissões avaliadoras, que são ao fim responsáveis pela definição de quem entra e quem sai estão sendo montadas sob um mesmíssimo perfil, geralmente com os nomes de sempre, e algumas vezes com pessoas que tem relações diretas com os trabalhos selecionados. Isso é imoral. Pode até ser legal, mas é imoral.

Embora diante de todo o rito das várias fases, sabemos que é a etapa classificatória quem define o resultado final. E é aí que reside a questão: se não forem constituídas comissões com perfis diferentes, com integrantes diversos que possam representar outras facções ou segmentos específicos, eles nunca estarão na lista vencedora e esta trará sempre mais do mesmo. É a isso que estamos assistindo, já por muito tempo: os resultados em sua maioria são favas contadas.

Infelizmente, com a cristalização desse modelo, muitos outros bons artistas estão deixando de participar da concorrência. No carnaval, por exemplo, se tentou até um boicote ao modo como a condução da chamada pública foi feita. Eu mesmo, apesar de ter sempre procurado apresentar propostas, atualmente estou mais interessado em questionar essa metodologia e investindo minha energia nisso, pois do que adianta participar de editais que sucessivamente apresentaram resultados tendenciosos?

Para mim, quem perde mesmo de verdade é a cidade, que fica sempre com essa pecha de que há arrumadinhos no que faz. E perde de mostrar ao seu público a diversidade musical de que se constitui. Também não cai bem para a prefeitura, que deveria zelar pela lisura de sua administração e comete acintosamente desrespeito aos pleitos públicos, travestindo de processo democrático algo que exaustivamente vem sendo criticado por significativa parte de seus artistas. Só não vê quem não quer. E ainda por cima, tem descartado o apelo que vem sendo feito sistematicamente para que esta situação seja revista e ajustada. Pois qual será outra a razão para que a Funcarte não tenha aceitado mais a participação de membros da sociedade civil organizada dentro dessas comissões?

A resposta dorme no escuro.

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bosco fpc

Bosco Araújo (UFRN) ladeado por Artemilson Lima (IFRN) profere sua fala no III FPC

O que está acontecendo com o setor cultural neste momento, se tratando da gestão estadual, mostra que a chamada classe artística potiguar e seus demais agentes é uma segmentação social ainda apenada pela falta de senso coletivo, em busca de uma maturidade que vem nos deixando à deriva no campo político, como se fôssemos desligados de um processo que faz parte de nossa dimensão humana enquanto seres pensantes.

Apesar da queda de dois gestores em menos de um ano, não se esboçou de forma sistematizada qualquer movimentação no sentido de dialogar com as chefias do governo uma saída para uma situação tão desfavorável. Ainda mais quando, durante a campanha, o hoje governador assumiu vários compromissos com os agentes culturais, inclusive o de nomear um gestor indicado por estes.

Claro que os problemas no âmbito da cultura vão além e muito além da gestão, e que muitas outras questões precisam ser encaradas em relação ao descalabro que é essa fundação, desde sua fundação. Mas o fato é que é na gestão que se faz a diferença; tanto que é a pessoa gestora quem simboliza uma determinada fase, consolida um modelo, ou ao menos torna-se uma referência frente a instituição.

E o certo é que após mais de 10 dias do rompimento partidário que ocasionou a saída do diretor geral da FJA do seu cargo, ainda nos encontramos acomodados em nossos assentos à espera do que será decidido pela cúpula do governo e seus cupinchas, sem nenhuma qualquer mobilização aparente, sem propostas, sem discursos, sem denúncias. Sem.

Como tivemos um encontro do fórum potiguar de cultura na semana passada, notadamente este foi um assunto que perpassou as conversas informais e se infiltrou na programação, mas também mais uma vez saímos sem um encaminhamento claro em relação à abertura de uma interlocução com o governo no tocante ao ambiente cultural e às políticas concernentes.

Aliás, o fórum, a meu ver, deveria constituir uma comissão formada por integrantes das linhagens artísticas e dar continuidade ao fortalecimento das causas comuns que imploram para serem tratadas numa luta conjunta, que não tema o exercício de nosso protagonismo cidadão, pois na atualidade tem sido imprescindível a construção de plataformas de interação que busquem representar seus interesses diante dos desafios intrínsecos ao fazer cultural.

Não é por sermos artistas que não tenhamos que nos unir em face de determinadas ocorrências. Desse jeito, apenas setores mais engajados na criação de políticas para suas respectivas áreas, industrial e/ou comercial (por exemplos), conquistarão avanços significativos, enquanto sobrará para nós o papel de reclamantes e a pecha de alienados.

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Palco

lançamento da RPM em 2010

Em Natal (RN), foi liquidada a Cooperativa da Música Potiguar – COMPOR.
O processo para encerrar a atividade da entidade já vinha se dando há alguns meses, mas o caminho para dar a baixa na junta comercial é demorado, muito burocrático, aborrecente e enjoativo. A cooperativa havia nascido em 2011 para dar um passo em relação a uma aposta do segmento música nacionalmente, que buscava no cooperativismo musical uma nova plataforma de viabilidade a modelos sustentáveis para seus associados. Mais da metade do grupo afluiu naturalmente da própria RPM – Rede Potiguar de Música, lançada em 2010 e que naquele momento resolveu se integrar na desafiadora experiência coletiva. Hoje, passado o tempo, a maioria dos membros envolvidos àquela época com a perspectiva de termos a cooperativa como um braço gerador de renda para os associados, estão em outra categoria: o MEI, Micro Empreendedor Individual, que veio a se tornar uma alternativa viável para o perfil do artista/produtor integrante da nossa empresa.

No geral, em termos mais abrangentes, creio que não sejamos a exceção. Outras cooperativas nascidas ou em formação espalhadas pelo país afora também passaram ou passam por dificuldades, sejam financeiras ou administrativas e deram pouco resultado para quem nelas se encostou com a pretensão de se engajar em um modelo novo e experimental para a música brasileira. Aliás, a maior parte dos pontos que orientaram a política pública para o setorial, advindos da intensa mobilização ocorrida durante o período em que Gilberto Gil estava à frente do MinC, foram gradativamente sendo dissolvidos, devagarinho, e agora pouco resta do projeto que se esboçou através do Fórum Nacional de Música e demais entidades que diziam representar as ambições do setor.

Dá para ver com clareza que o enguiço não está pontualizado numa só zona, cidade ou estado. O nó é mais embaixo e certamente tem a ver com a própria natureza da arte que fazemos, mas é duvidoso fazermos qualquer avaliação acerca dessa situação sem que nos coloquemos como sujeitos implicados dentro dessa esfera, para a qual devemos continuar a contribuir, se quisermos consolidar alguma conquista nesse tabuleiro complexo, em que tem se tornado cada dia mais crítica a construção de uma política pública de cultura para as nossas artes.

A impressão que me dá, é que assim como localmente – pra variar! – temos uma série de dificuldades envolvendo os procedimentos e encaminhamentos relacionados, também num nível macro (nacional) atravessamos uma fase sem muito entusiasmo, algum ressentimento e nenhuma conquista significativa do ponto de vista do alcance simbólico ou pragmático, no sentido de nos mover avançando. Mesmo as discussões virtuais vieram se encolhendo, algumas foram desqualificadas pelo teor em si, e para completar, em nada foram ajudadas pelas pautas confusas ou retrógradas que as constantes mudanças no comando do ministério fizeram recuar. É óbvio que estamos tratando de um movimento da sociedade civil, mas não devemos deixar de contar com a importância dos pactos que foram discutidos e encampados em conjunto com o poder público, muitos deles, fracassados.

Também do nosso lado, como agentes criativos e donos de uma consciência que dialogue com o estético, mas também com a cidadania, é forçoso reconhecer que as estratégias e rumos a que vimos nos dirigindo desde que teve início essa mobilização nacional, iniciada ainda com as câmaras setoriais, não evoluíram para uma necessária adequação ao presente e vem nos impondo duras derrotas e penosos percursos, estéreis. A que devemos responsabilizar esses erros? Qual a saída para encabeçarmos uma retomada de nossa mobilização, se é que há hoje um ambiente favorável a esta alternativa? Onde buscar condições para agir sob um diálogo unificado, que atente para as demandas regionalizadas, mas que seja posto de pé sob bases estruturantes que perpassem toda a cadeia produtiva, incida sobre nossa realidade e nos traga respostas eficazes?

São muitas as questões que estão a exigir de nós uma melhor definição, mais clara, mais coerente, mais coesa e também mais efetiva, oferecendo um norte ao nosso horizonte desarmonizado.

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KA EM BH

5 maio, 2015

Mak Ka

Estava em BH para ver o Makely Ka.
Era a última sexta de abril e o show era o Cavalo Motor.
Em cena, além do condutor, uma banda grande e convidados
dispostos a nos conduzirem para dentro do universo multiplicado pelo artista,
que refez em 2012 uma pequena parte do Grande Sertão montado numa bicicleta
e gerou a partir desse itinerário um disco, um show, um relato fotográfico e, por fim,
a gravação de um dvd que estava sendo filmado naquela noite no palco do Teatro Bradesco.

Perfeitamente sintonizado com a atualidade da música brasileira, mas sem se eximir de contar com referências tradicionais das harmonias mineiras e nordestinas por exemplo, Makely vem dialogando em sua obra com parcerias inusitadas, onde pontuam desde improváveis instrumentistas das ruas novaiorquinas até conceituados virtuoses do meio intelectual nacional, sempre unidos por critérios estéticos apurados e a partir de uma concepção artística singular, que o próprio faz questão de cultivar em relação ao que produz.

Makely botou na praça ano passado, com o apoio do Natura Musical, um disco impecável, muito bem produzido, excelente gravação e mixagem, perfeitamente acabado, lindo, sublime. Embora suas melodias não sejam de assimilação instantânea, quem se desobrigar a uma audição mais apurada irá se maravilhar com a exuberância tecnicamente impecável de seu instrumento se alinhando a violas, tambores, pífanos e outros sons padrões que se misturam a recursos experimentados eletronicamente em perfeita sincronia com timbres mais orgânicos, realçando o texto de um compositor com rara disposição, texto inspirado e sensível interpretação.

Por este conjunto de jogadas que vem sendo capaz de levar adiante, além de sua performance na atuação política cultural dentro do segmento há uma década, Makely Ka vem se credenciando como um craque, e na minha opinião, como forte concorrente a levantar um troféu para a música feita no Brasil neste período. Pedalando para isso ele está, e mesmo devagarinho, vencendo trecho a trecho a estrada tortuosa, sua música tem potencial para escalar veredas íngremes e, sólida, se afirmar a partir da personalidade que o seu autor lhe confere.

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POR QUE CANTEI LENO

23 junho, 2014

Em fevereiro de 2009 me apresentei no Poticanto, projeto idealizado e executado por Nélson Rebouças onde um artista potiguar interpretava outro; e escolhi Leno, que havia há pouco retornado ao seu local de origem, sua terra Natal, após décadas de fixação entre Rio e Sampa como um dos grandes nomes da Jovem Guarda, e o único potiguar dentro do movimento.

Pouco mais de duas semanas – aproveitando os primeiros embalos para dar forma a um projeto com o qual viria a lidar até aqui, a Raul Seixas Banda Clube – e eu e Samir e Gabiru e Jacson Silva nos preparamos para fazer essa única apresentação da obra de um conterrâneo ilustre, embora pouco referenciado por nós.

Leno veio a ficar nacionalmente conhecido como integrante da famosa dupla com Lílian, mas após esta etapa sua carreira continuou se voltando para os sons que deram sua primeira formação musical, ainda em Natal, no final da primeira metade da década de 1960, quando montou com amigos a banda The Shouters.

Sem dúvida também colaborou fortemente pra esse show no Poticanto o fato de Leno e Raul Seixas terem tido uma convivência muito grande, desde o primeiro momento da chegada do baiano às terras cariocas, encontro que renderia uma farta convivência entre os dois artistas, tendo resultado entre outras maravilhas, no cultuado disco Vida e Obra de Johnny McCartney, censurado pela metade quando gravado, e só trazido à tona por um selo dos EUA mais de duas décadas depois. À época trabalhando para montar o show ‘Tolo de Ouro’ com os meus parceiros, decidimos tirar uns 15 dias para preparar e mostrar ao público, que lotou o Teatro de Cultura Popular, uma dúzia de canções deste mestre.

Leno é um compositor com muito material conhecido, mas preferimos dar lugar a um repertório que se estendesse sobre sua carreira solo, e tocamos entre estas músicas a emblemática Flores Mortas, de temática (pre)ecológica, criada ainda quando poucos davam atenção a estas questões que mundialmente fariam muito sentido tempos depois, sendo hoje cada vez mais atuais.

Através deste contato, quando nos conhecemos pessoalmente, em cima do palco, foi possível contar com a sua participação em uma das músicas do meu segundo disco de estúdio, Alma de Poeta, na bela Nenhuma Exata Resposta, parceria minha com Chico César, que Leno abrilhantou com vocais concebidos e colocados bem à sua maneira na canção.

O registro se deve a uma providencial câmera que meu irmão Lulinha deixou parada lá em algum lugar, o que possibilitou que hoje tenhamos esse documento. Lula, aliás, participou tocando acordeom em Ciências e Religiões, outra belíssima canção de Leno a que foi dada um tratamento personalizado e emocionantemente intimista.

 

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