Adeus, Franklin Mário!

3 junho, 2018

A imagem pode conter: Franklin Mario, sentado

“Tu podes calar a minha boca
Mas não te iludas, não podes calar a minha alma
Mas se por acaso calares minha alma
Ficarei nas almas que calam as bocas
Ficarei nas bocas que não calam as almas”

(texto de Alessandre de Lia musicado por Franklin Mário)

Posso dizer que fui um dos primeiros intérpretes de Franklin Mário (1970-2018).

Atendendo a um convite seu, me juntei a ele e aos músicos Aldo e Luciano Eduardo (Basquetêra) em 1991, para cantar na banda Transe Capitalista, a que sempre me referi como O Transe, que a mim bastava e soava muito bem à existência de um rapaz na disparada velocidade dos 21 anos.

Os ensaios se deram na Cidade da Esperança, dispersos em residências de amigos, mas a maioria expressiva aconteceram na pequena área de entrada da casa dos pais do Franklin, com quem ele morava. A energia era intensa e o espaço curto, tanto pros lados quanto pra cima, onde às vezes acabava por me ferir as mãos o concreto rebaixado do teto durante os saltos a que aquela instigação sonora me levava.

Nunca tive qualquer dúvida que a rápida passagem que fiz tocando ao lado de Franklin e seus amigos, com quem ele já mantinha uma correspondência anterior, foi decisiva para me levar a uma definição mais concreta acerca de minha entrada para esse campo, me autoafirmando profissionalmente e contribuindo significativamente para o meu próprio jeito de compor as minhas próprias canções.

A razão mais lembrada pra isso vinha da força do repertório, pois ali estavam presentes suas criações mais roqueiras, como Criança Inocente (com Caio César), Sangue Azul, Não me Deixe Só, Dores Domadas e Depois do Cansaço, esta incluída no meu primeiro disco. Também registrei no CD Alma de Poeta um texto seu que musiquei, chamado As Mulheres. E ele botou música numa letra que tenho chamada Yellow Brick Road. Junto a Aldo também temos outra parceria: Amazônia Clandestina.

Franklin Mário possuía uma notável riqueza de talento para o universo da composição. Sua diversidade de temáticas, quase sempre na seara das relações humanas, se espraiava sob a riqueza harmônica de sua criação amparada em admiráveis direções melódicas, conjugadas com maestria pelo seu violão muito fluido e também impressionantemente simples. Em suma, ele era dotado de um dom nato, o que o tornou uma referência na música natalense, indubitavelmente.

Embora não tenha sistematizado sua produção, durante uma maior aproximação sua com Júnior Baiano, à época em que este montou um estúdio caseiro, Franklin registrou uma parte de seu repertório, que dividiu em 3 arquivos virtuais, disponibilizados por Antoanete Madureira na internete: Temporário, Ingênuo e A Cidade em Movimento. Os registros não possuem sequer os nomes das músicas e muito menos os de seus parceiros, mas passam a ser de agora em diante uma fonte de acesso ao seu material. Consta ainda um outro registro com os poemas que ele musicou de Oreny Júnior, este com mais detalhes.

Num disco em que se codinominou Mulambêra, Júnior gravou várias canções do amigo e parceiro, muito bem arranjadas e tocadas por Jubileu Filho e gravada no Studium, por Jota Marciano. Já agora, na sua despedida, poucos dias antes de sua partida, ele próprio postou e divulgou Traçados, seu álbum em parceria com Antônio Ronaldo, registrado profissionalmente em estúdio, com a regência de Donizete Lima e sob a mão cuidadosa de Sérgio Farias. Esse foi também o tema de nossa última conversa, há cerca de dois meses. Sem saber, nos despedíamos ali.

O bairro da Cidade da Esperança, com esse nome tão poético, foi o berço artístico de Franklin, que nasceu nas Rocas. Foi lá que viveu a grande maioria dos seus dias, enraizando-se na vida social da comunidade, formando e saindo de bandas que apresentavam-se na festa da padroeira e, nos últimos anos de sua boemia, a reunir-se a amigos e admiradores no Bar do Aurino, onde suas músicas eram tocadas e entoadas uma atrás da outra. O local se transformou por um longo período em sua segunda casa, de onde saía muitas vezes trôpego, deixando preocupados seus pares ao atravessar a avenida da frente.

Deve ser lá também que, a depender de Dina Guedes, se fará uma justa reunião das amizades que prezavam tanto a figura desse compositor de muitas qualidades, de uma produção nada desprezível, com o fim de manter acesa não só a sua memória mas também a sua obra, que deve reverberar tanto quanto tempo mais se passe, preservando-o entre nós para sempre.

Escrever esse texto é dar o meu testemunho acerca da importância de um dos mais profícuos compositores do meu tempo, que nos deixa uma obra vasta, eclética e bela.

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Está sendo lançada em Natal agora pelo fim de 2016 a campanha “Música Potiguar: Nosso Som tem Valor” (#musicapotiguarnossosomtemvalor). Ainda não estou completamente inteirado de como ela se desenrolará, mas não há como deixar de participar de qualquer esforço nesse sentido, nem que seja com esse texto.

E sim!, é verdade. Nossa música tem valor, muito valor até. São valores, inclusive. Mas como sabemos, Valor é uma palavra genérica que podemos aplicar a diversos sentidos. Vamos pegar 2 pra nossa discussão aqui, (se houver): o simbólico e o econômico.

O valor simbólico pode muito bem ser exemplificado pelas recentes postagens alusivas ao Dia do Músico, celebrando a padroeira da música, Santa Cecília. Creio que muitos devem ter visto as muitas manifestações dos músicos, com queixas acerca de suas realidades na cena local, as dificuldades e perrengues por que passam(os), a dureza de ser um ser devotado ao ofício e dele viver e sobreviver. Abaixo dos desabafos dos artistas, as caixas de comentários ficaram repletas de manifestações de apoios valorosos (simbólicos), alguns emanando forças invisíveis que na prática pouco poderiam mudar algo concreto na vida difícil de quem canta reflexões ou alegrias nos clubes, quiosques, bares, festas etc.

O xis da questão é o outro valor, o econômico, financeiro, o que pode materializar o resultado da dedicação dos que se entregam a uma profissão cheia de incertezas e percalços, símbolo expressivo de nossa cultura, mas tratada com uma natural ponta de preconceito que começa por quem acha que músico não trabalha e apenas se diverte. Este olhar, muito comum, é o que faz com que as pessoas em geral reclamem do valor do couvert artístico na conta, ou que menosprezem a atividade profissional de quem estudou, ensaiou, investiu e apresentou seu repertório, seja autoral ou alheio, desvalorizando o trabalho com atitudes de ignorância, e pior, de exploração. (Abra-se parêntese rápido para trazer à tona o duelo jurídico recente entre uma banda daqui e um conceituado festival: abriu-se a causa pelo cachê irrisório oferecido e outras discrepâncias que sempre rolam quando se trata de lidar com os músicos potiguares nos eventos locais).

Seja como for, o certo é que entre o ideal e a realidade sempre encontramos um vácuo bem grande. Qual o valor que as instituições públicas legam à música produzida localmente? Bem sabemos: a prefeitura e o estado são conhecidos por destacar em suas propagandas uma enxurrada de números que não são condizentes com as ações dos administradores, com atitudes até discriminatórias em relação ao pagamento dos cachês locais, ou mesmo sabotando os movimentos e as poucas articulações coletivas dos artistas e grupos da cena natalense, como se deu recentemente com o cancelamento do festival Natal tem Música.

Mas há sim campo para o crescimento e maior valorização de nossa música. E é isso que a campanha quer (vou até enumerar algumas sugestões):
1 Maior abertura das rádios para tocar em horários de maior audiência a produção musical de seus lugares, conscientizando e convencendo os programadores e locutores a destacar os nomes dos intérpretes e compositores das gravações (e referente inclusão das faixas em suas listas de recolhimento de direito autoral);
2 Participação dos departamentos de marketing das agências de propaganda e demais veículos da mídia em geral para usar como fundo musical trechos de criações musicais potiguares nas inserções que vão ao ar nos comerciais, reportagens etc (e referente inclusão das faixas em suas listas de recolhimento de direito autoral);
3 Maior exigência dos músicos em relação aos seus direitos, como camarim básico, estrutura digna para as apresentações, principalmente em relação ao som, cumprimento de acertos contratuais etc, valorizando o seu trabalho frente ao profissionalismo que toda prestação de serviço precisa e deve ter;
4 E ainda um necessário esforço para a aprovação de ao menos uma garantia legislativa (lei) que traga benefícios a este setor, com recursos para fomentar a cadeia produtiva, permitindo o aparecimento de novas gerações de artistas e maior preparo de técnicos e operadores de som e luz, por exemplo.
5 Por fim, a unidade em torno de pontos que fundamentem o crescimento expressivo de uma luta em favor destes e demais objetivos que possam ser positivos para os que exercem esta atividade e aos que dela desfrutam. E a isso se chama Política.

Ah, e antes que eu me esqueça: “músico da terra” é o caralho!

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