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A despeito de Bolsonaro e de outros párias por aí, como Dória em Sampaulo, a eleição de Fátima Bezerra para o governo do RN trouxe um significado muito distinto para o estado, pois se trata historicamente de elevarmos à condução do destino político potiguar uma pessoa de origem popular para o cargo máximo da administração pública. Sem contar com as comemoradas derrotas de cacifes da oligarquia, que ficaram de fora de suas pretensões de continuarem como representantes legislativos, o que não se confirmou.

Nessa fase de transição, quando são levantados os dados e dadas as condições para o novo exercício a partir de janeiro, estão sendo também anunciados os nomes do secretariado. No segundo escalão, sem maior alarde, vão avançando as composições para a indicação dos gestores que darão a cara a várias pastas, incluindo a Cultura, pela qual responde a Fundação José Augusto no organograma atual.

Nos bastidores, além de uma ou outra discussão paralela, em geral virtual, pra variar, nenhuma discussão mais consistente sobre o assunto. O único que li a especular sobre foi o jornalista Sérgio Vilar, no blogue que assina. E fez bem ao levantar o tema, que não foi além dos comentários. Nenhuma mobilização mais articulada, que mostrasse o quanto o setor cultural progrediu em se fazer representar perante essa estrutura burocrática a que também temos que fazer frente, se tratamos de política pública.

O Fórum Potiguar de Cultura fez um esforço no sentido de construir um documento que chegou a ser entregue às candidaturas, divulgado na mídia, com as diretrizes básicas elencadas pelos agentes culturais, resultante do IV FPC, encontro estadual realizado em agosto. Mas não teve ainda a oportunidade de reforçar o seu papel diante da dialética básica que deve ser estabelecida por um governo que se perfila à esquerda e se elegeu com um discurso democrata.

Diante do caos a que fomos jogados pelas sucessivas administrações, estamos em sérias dificuldades: as ruas da cidade estão escuras, os pontos de ônibus, apagados, a lama fede correndo pelos esgotos, às vezes misturada à sangue. Mas não devemos nos desligar do cuidado que devemos manter com o campo do simbólico, do artístico, do estético, tão aparentemente irrelevante mas ao mesmo tempo tão decisivo, sabemos. É justo através dele que saltamos sobre o obscuro, sobrevivendo com dignidade e decência às intempéries da vida, tais quais as que estão postas no nosso caminho já a partir de 28 de outubro.

Nisso, torna-se óbvio a demanda que consta nas primeiras reivindicações, desde sempre, que é a Secretaria. E para além dela, do seu orçamento e de sua estrutura, que esta seja capitaneada por um gestor plenamente capacitado, empoderado pelo executivo, prioritariamente a partir de uma indicação dos próprios fazedores de cultura e não de conchavos nos gabinetes, onde sempre se corre o risco de uma negociata truculenta e sem sintonia com as necessidades reais dos que são diretamente afetados por tal escolha. Sim, pois assim se faz num programa que leve em consideração a participação ativa dos verdadeiros responsáveis por um mandato eletivo, que é ao fim o povo.

Temos que ir além desse conformismo de que, ganhas as eleições, a equipe seja montada a partir de uma coalizão de forças, que em geral mais parece uma colisão de forças. O novo é que nós mesmos nos mobilizemos e aprendamos a construir e a usufruir do direito que temos de reivindicar para nossos campos os nomes que tenhamos identificado como potenciais gestores de nossas áreas, nossas demandas, nossos projetos, nossos pensamentos. Ao menos levar em conta uma prática que temos que exercer, por direito, e não apenas por retórica vazia.

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Cosmopolítica

25 outubro, 2015

Vivemos uma semana (passada) com um fato chamativo: a exoneração do Bico.
Rodrigo foi cantado como o secretário de cultura, o mais jovem, na verdade, a ocupar o cargo de direção da Fundação Jose Augusto, e também entre todos os outros em funções equivalentes nos demais estados.

Sua nomeação, após um grave suspense nos bastidores do partido que o indicou, atendia por suposto a uma indicação do Fórum Potiguar de Cultura, que ofereceu ao governador eleito uma lista tríplice, atendendo a uma promessa de campanha do político, que se comprometia a empossar um nome sugerido pelo setor cultural.

No comando, Rodrigo Bico montou sua equipe e se dispôs a construir através de muitos diálogos uma agenda para a área. Foi em frente e está a um passo de lançar um conjunto de chamadas públicas contemplando várias linguagens, num edital que provavelmente levará em conta as propostas recolhidas e a capacidade orçamentária da entidade, que é bem baixinha.

Embora o fato do nome de Bico estar entre aqueles que foram indicados pela sociedade civil, em um protocolo oficial entregue à época por uma comissão formada para este fim ao então coordenador da equipe de transição do novo governo, embora assim, nunca houve por parte do dirigente a apropriação desse fato simbólico. Nem muito menos os próprios artistas seguiram seu rito de empoderamento, haja visto que de modo concreto nada aconteceu. Nem sequer sabemos como está o processo para a criação da secretaria, outro compromisso de campanha de Robinson Faria.

Ou seja: tudo parece ter ficado atrás do pano da cortina partidária. Tanto que agora, ao se afastar da parceria, a senadora Fátima Bezerra leva também junto os seus peões. E mexe nesse tabuleiro de peças frágeis que é a construção de políticas públicas, feitas a partir da inclusão, da participatividade cidadã, e não meramente de um jogo carteado do poder. Então, é nisso que dá. Se Rodrigo Bico fosse realmente uma indicação da sociedade civil e por ela tivesse ele a garantia do seu posto, independente de facções, correntes ou dissidências, outro seria o desfecho de sua gestão.

Nosso papel, como seres sociais, é o de desconstruir essa lógica batida. É crer que como grupos organizados devemos e podemos protagonizar atos reformadores de uma política sem espelhos voltados para o passado. É ir adiante, tomando a dianteira, e deixar esse negócio de ficar correndo atrás.

Para mim, integrando o FPC (Fórum Potiguar de Cultra), quando da realização do debate entre os candidatos, quando do compromisso em dar assento a um nome indicado pelo setor, quando nos mobilizamos para fazer a Plenária da Indicação, enfim em todos estes atos, estamos assumindo nossa parcela de responsabilidade sobre conduções políticas que demandam a justa participação dos interessados.

E agora? O que faremos? Com a queda inesperada do atual gestor, como ficamos?
Mesmo que a indicação pertença de fato ao PT, sendo Fernando Mineiro o certo fiador desse espólio, nossa atitude deveria ser o de oferecer um nome, construído (que seja!) pelas lideranças culturais em seus muitos segmentos. O Fórum Potiguar de Cultura está atualmente sem uma comissão executiva, me restando a única função de mobilizar as gentes.

Para fazer isso, resolvi escrever isso.
É muito mais digno uma luta justa.

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