CHUVA DENTRO DO MAR

4 junho, 2016

ganh 3 midwayMais um edital público foi aberto e fechado em Natal para o setor musical.

Dessa vez tratou-se do recurso para custear a cerimônia da passagem da tocha olímpica.

Mesmo que extemporâneo, o concurso (que ao fim das contas é o que um edital público é) revela mais uma vez em seu resultado que Valéria Oliveira e Krhystal Saraiva se saíram com as melhores pontuações. Parabéns às duas e aos seus trabalhos, consistentes e aguerridos.

Porém, não nos deixa de chamar a atenção alguns relances que poderiam suscitar algumas reflexões, e é o que quero fazer com esse artigo, sem demérito do trabalho de quaisquer artistas nele citados diretamente, ou mesmo a qualquer outro que porventura venha a se sentir incluído. O foco aqui não é discutir arte e trabalho de artistas. Longe disso. Não é algo que costumo fazer, nem mesmo numa esfera privada, pois nutro um profundo respeito pela produção criativa de muitos artistas do lugar.

Explicado isso, antes de mais nada também convém salientar que o que abordo aqui é o edital público, da esfera pública, ou àqueles que são feitos pelas empresas privadas mas com recursos da renúncia fiscal, o que dá quase no mesmo. Chamadas públicas feitas com o dinheiro próprio do caixa da empresa, claro, podem muito bem serem direcionadas para onde lhes é conveniente.

Mas não é o caso. Estou tratando aqui de dinheiro meu, de dinheiro do contribuinte, onde certamente podemos (e devemos opinar), sem receio de que ao fazermos isso estejamos invadindo um terreno sacramentado pelo mercado, o que já é outra história. O que me interessa, enquanto cidadão e músico, é a abertura de possibilidades que possam no mínimo permitir que o processo de proposição e avaliação de uma chamada pública, principalmente as que forem conduzidas por órgãos e entidades públicas ou mistas (como é o caso do Sebrae), possam oferecer as condições apropriadas para uma análise criteriosa e justa, mas também ampla, diversificada, garantindo no seu resultado uma maior representatividade de conteúdos e propostas.

Com toda franqueza, não é o que vem acontecendo aqui. A formação das comissões avaliadoras, que são ao fim responsáveis pela definição de quem entra e quem sai estão sendo montadas sob um mesmíssimo perfil, geralmente com os nomes de sempre, e algumas vezes com pessoas que tem relações diretas com os trabalhos selecionados. Isso é imoral. Pode até ser legal, mas é imoral.

Embora diante de todo o rito das várias fases, sabemos que é a etapa classificatória quem define o resultado final. E é aí que reside a questão: se não forem constituídas comissões com perfis diferentes, com integrantes diversos que possam representar outras facções ou segmentos específicos, eles nunca estarão na lista vencedora e esta trará sempre mais do mesmo. É a isso que estamos assistindo, já por muito tempo: os resultados em sua maioria são favas contadas.

Infelizmente, com a cristalização desse modelo, muitos outros bons artistas estão deixando de participar da concorrência. No carnaval, por exemplo, se tentou até um boicote ao modo como a condução da chamada pública foi feita. Eu mesmo, apesar de ter sempre procurado apresentar propostas, atualmente estou mais interessado em questionar essa metodologia e investindo minha energia nisso, pois do que adianta participar de editais que sucessivamente apresentaram resultados tendenciosos?

Para mim, quem perde mesmo de verdade é a cidade, que fica sempre com essa pecha de que há arrumadinhos no que faz. E perde de mostrar ao seu público a diversidade musical de que se constitui. Também não cai bem para a prefeitura, que deveria zelar pela lisura de sua administração e comete acintosamente desrespeito aos pleitos públicos, travestindo de processo democrático algo que exaustivamente vem sendo criticado por significativa parte de seus artistas. Só não vê quem não quer. E ainda por cima, tem descartado o apelo que vem sendo feito sistematicamente para que esta situação seja revista e ajustada. Pois qual será outra a razão para que a Funcarte não tenha aceitado mais a participação de membros da sociedade civil organizada dentro dessas comissões?

A resposta dorme no escuro.

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POR QUE CANTEI LENO

23 junho, 2014

Em fevereiro de 2009 me apresentei no Poticanto, projeto idealizado e executado por Nélson Rebouças onde um artista potiguar interpretava outro; e escolhi Leno, que havia há pouco retornado ao seu local de origem, sua terra Natal, após décadas de fixação entre Rio e Sampa como um dos grandes nomes da Jovem Guarda, e o único potiguar dentro do movimento.

Pouco mais de duas semanas – aproveitando os primeiros embalos para dar forma a um projeto com o qual viria a lidar até aqui, a Raul Seixas Banda Clube – e eu e Samir e Gabiru e Jacson Silva nos preparamos para fazer essa única apresentação da obra de um conterrâneo ilustre, embora pouco referenciado por nós.

Leno veio a ficar nacionalmente conhecido como integrante da famosa dupla com Lílian, mas após esta etapa sua carreira continuou se voltando para os sons que deram sua primeira formação musical, ainda em Natal, no final da primeira metade da década de 1960, quando montou com amigos a banda The Shouters.

Sem dúvida também colaborou fortemente pra esse show no Poticanto o fato de Leno e Raul Seixas terem tido uma convivência muito grande, desde o primeiro momento da chegada do baiano às terras cariocas, encontro que renderia uma farta convivência entre os dois artistas, tendo resultado entre outras maravilhas, no cultuado disco Vida e Obra de Johnny McCartney, censurado pela metade quando gravado, e só trazido à tona por um selo dos EUA mais de duas décadas depois. À época trabalhando para montar o show ‘Tolo de Ouro’ com os meus parceiros, decidimos tirar uns 15 dias para preparar e mostrar ao público, que lotou o Teatro de Cultura Popular, uma dúzia de canções deste mestre.

Leno é um compositor com muito material conhecido, mas preferimos dar lugar a um repertório que se estendesse sobre sua carreira solo, e tocamos entre estas músicas a emblemática Flores Mortas, de temática (pre)ecológica, criada ainda quando poucos davam atenção a estas questões que mundialmente fariam muito sentido tempos depois, sendo hoje cada vez mais atuais.

Através deste contato, quando nos conhecemos pessoalmente, em cima do palco, foi possível contar com a sua participação em uma das músicas do meu segundo disco de estúdio, Alma de Poeta, na bela Nenhuma Exata Resposta, parceria minha com Chico César, que Leno abrilhantou com vocais concebidos e colocados bem à sua maneira na canção.

O registro se deve a uma providencial câmera que meu irmão Lulinha deixou parada lá em algum lugar, o que possibilitou que hoje tenhamos esse documento. Lula, aliás, participou tocando acordeom em Ciências e Religiões, outra belíssima canção de Leno a que foi dada um tratamento personalizado e emocionantemente intimista.

 

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