Lula (lanç CD Tocante)

Mestrinho e Lulinha (foto de José de Holanda)

Estive presente ao lançamento do CD Tocante, de Lulinha Alencar e Mestrinho, acontecido no início desse maio no palco do Sesc Pompeia, em Sampa. O disco reuniu algumas pérolas que seu Domingos compôs para homenagear alguns nomes da música brasileira, o mesmo que os dois sanfoneiros fizeram em relação ao mestre, com quem chegaram a dividir parte de suas vidas profissionais, em noitadas forrozeiras e turnês juninas. Além das regravações dessas obras, tanto Lulinha quanto Mestrinho também gravaram composições próprias, feitas para homenagear seu mestre, declaradamente uma influência definitiva na formação deles.

Lulinha é potiguar e Mestrinho é sergipano, de Itabaiana. Dominguinhos era natural de Garanhuns, pernambucano como Gonzaga. Temos aí uma sequência geracional que dão ao acordeom, a popular sanfona, um uso muito bem apropriado para esse instrumento, tão espetacular. Secularmente mais ligado às artes populares, a partir de Dominguinhos, pela sua personalidade e carisma, além da grande desenvoltura técnica, passou a dialogar com outras linguagens musicais, mais rebuscadas. E é agora explorada nas mais diversas direções, em fusões com o jazz ou amplamente incluída em arranjos de vários gêneros em estúdio ou em apresentações vivas.

No show conjunto prevaleceu o som límpido do solo dos instrumentos, numa performance inusual, com as duas sanfonas conversando, num diálogo inspirado e uma capacidade excepcional dos músicos em respeitar um ao outro, abrindo pausas para as entregas intensas de cada um em seus momentos, deixando nítida a impressão de uma perfeita sincronia entre os dois, convergindo sempre para um ápice comum , que arrebatava o público presente.

O roteiro da apresentação seguiu basicamente o gravado, tendo sido feita uma pequena alteração inicial para abrirem o programa com ‘Ciao, São Paulo’, a única exceção aos autores referidos, sendo esta uma canção composta pelo renomado acordeonista francês Richard Galliano, também dedicada a Domingos e gravada pelos três admiradores confessos do nordestino, falecido poucos meses depois da celebração do centenário de seu padrinho famoso, Luiz Gonzaga.

No palco, a sobriedade de um cabide onde foram dependurados 3 chapéus brancos de couro, típicos da indumentária usada notadamente por Dominguinhos quando de suas apresentações ou em fotografias, a apurada serenidade na iluminação de Pedro Altman e uma competência elegante de Adonias Jr para captar com maestria o som dos dois instrumentos em cena. Quando a música e os músicos são desse tal nível, convém dispensar demais artifícios.

Foi isso. E foi bom assim.

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