Acabei de ler por esses dias o livro Memórias da Várzea da Caatinga, assinado em conjunto por Josivan Santos de Oliveira (em versos) e Airene José Amaral de Paiva (e prosas). Nele, Josivan faz com que as memórias e reminiscências do lugar ganhem contornos poéticos, estruturados em 300 estrofes que visitam os topônimos, as personagens, causos e fatos históricos, metrificados num cordel que guarda as lembranças populares, lendas e origens da cidade. Depois, em pequenas crônicas, Airene faz o mesmo, com outro estilo literário, mas também com o mesmo fio, alinhando alguns acontecimentos pitorescos de nossa terra.

Assim, os dois acabam por perfilar um retrato bem particular do torrão natal, preenchendo uma lacuna que é indispensável a qualquer povo: a preservação de sua memória. Fica gravado para todo o sempre, servindo a futuros estudiosos e pesquisadores, tanto como a demais interessados, mesmo que apenas afetivamente.

Aguardava com expectativa o lançamento desse material, especialmente porque em seu título está expresso o nome antigo da nossa cidade, que é lindo, extremamente poético, e que vem referendar o nome do meu 3º disco, chamado Várzea da Caatinga. Como já todos sabem, venho defendendo há tempos uma discussão acerca da renomeação de Rafael Godeiro, através de um trabalho que envolve a comunidade, suas escolas, famílias, políticos etc. E é claro que quando essas duas obras se juntam em referência ao passado, elas trazem naturalmente elementos que contribuem para aprofundar esse processo.

Ano passado, durante a turnê anual que faço pelo estado através do CIMA (Circuito Itinerante de Música Autoral), tive a oportunidade de visitar as escolas municipais e falar um pouco do meu disco, que estava lançando, além de abrir uma discussão sobre essa possibilidade com os estudantes e professores, mas o assunto precisa ir além, adentrar outras esferas públicas e chegar até a Câmara Municipal, que é quem pode propor a mudança num plebiscito.

Por ora, me alegra que essas iniciativas artísticas tenham trazido à tona esse tema, a que outras vem aos poucos se somando. Edson Silva, filho do seu Aldo Lopes, publicou recentemente um cordel maravilhoso, muito bem feito, a que chamou Baú da Caatinga, … e assim, passo a passo, novas obras poderão vir provocando essa redescoberta, não só do belo nome, mas também incluindo outros feitos de nosso povo, valorizando nossa cultura própria e descartando as citações àqueles que dela só quiseram tirar proveito.

 

 

 

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Meu pai fez em março passado 80 anos.
Chegamos a pensar em algumas maneiras de festejar a data: uma festa, uma viagem, ou as duas coisas juntas. Mas seu aniversário coincidiu com a chegada temida do coronavírus e isso fez com que todos os planos fossem abortados. Então, já em isolamento, repartimos um bolo e mandamos o vídeo para os familiares.

Tenho visto muitos outros amigos celebrando as oito décadas dos seus genitores, e sei que se trata de uma grande alegria para aqueles que conseguem alcançar essa data importante. Especialmente numa hora dessas, em que há uma pandemia em curso e que tem vitimado muito os mais idosos. Por isso, compartilho exultante dessa felicidade que é ter um pai octogenário, mesmo que isso signifique uma série de cuidados de nossa parte e limitações evidentes causadas pela idade. No meu caso, tenho um pai com a doença de Parkinson, tratamento severo à base de drogas pesadas e atenção paciente e constante do amanhecer à noite.

Zé de Cezário, como ficou mais conhecido no sertão onde tocou metade de sua carreira musical, foi também diretamente responsável pela aproximação da filharada com a música, dentre os quais eu e o meu irmão acabamos por nos profissionalizar nesse campo. Vivemos da música e de todos os desafios que a escolha nos obrigou. Mas somos recompensados por exercer um ofício com amor, nascido com a gênese da arte que carregamos no sangue, que nos faz trabalhar duramente sem esperar nada em um país que renega a grande maioria de seus artistas ao ostracismo e ao esquecimento.

O 3º CD que gravei em estúdio, Várzea da Caatinga (2017), é dedicado à beleza profunda dos olhos azuis do meu pai, por ele ter tido a coragem de nos estimular a seguir com nossos sonhos em relação ao trabalho, romper com a liturgia da caretice, vibrar nas emoções familiares (ou não tá nem aí às vezes também), … enfim, por tudo. Pela educação que nos deu, pelo que nos ensinou e nos ensina com a sua simplicidade, pela dignidade de não ter quebrado nunca nenhum contrato, por todas as lições.

Presente Amigo é uma canção que lhe escrevi, inspirado no nosso universo musical sertanejo, nordestino, colhendo os versos no trajeto até a chapada do Araripe, quando fomos juntos celebrar o centenário de Gonzaga, de quem ele sempre foi grande admirador. Com essa música, gravada com a participação instrumental dele e de Lulinha Alencar, reverencio sua importância e significado em nossa trajetória e demarco a fonte de inspiração que sua sanfona traz a cada dia dentro de nós que somos seus filhos.

Com Amor.

 

 

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Várzea da Caatinga

3 maio, 2018

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VÁRZEA DA CAATINGA

Eu nasci aqui
Eu mergulhava os meus pés no riacho
Antes que tudo só virasse terra seca
O sol nos esturricando a pele fofa
Enquanto vamos a bater o pilão
(tum-tum!! soca-soca!!)
Algumas coisas até, eu via gigantescas
Mas hoje não cabem nem mais meus pés
juazeiros, jegues, ancoretas e caçuás
Doces serigueleiras, trapiás
Novos currais feitos de pedra
Os poços abertos dos cacimbões
Os concrises, os cancões
Os romances dos pavões
Os oitões de pereiros
Os plantios no inverno
sempriternos

Brinquei muito nos barrancos desses rios
Mamãe que se cuidasse enquanto lavasse a roupa
Enfiava-me nas locas, às vezes assustado
Trepava em cima das árvores, arteiro
Fui (e sou) danado
Foda lá em nós era picada
E a gente topava até debaixo d´água
Subia o tronco dos cajueiros
Em busca de gostosas castanhas

Eu cresci aqui
Sob as ruínas dos torrões
A sala da casa é essa montanha de pó
E sob esse chão arrastei meus bois de ossos
Eu riscava as estradas com pontas de cipó
Para marcar em minha ida o caminho da volta

Cá estou eu mais uma vez … !!

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